segunda-feira, março 20, 2017

A CARNE É FRACA OU FORTE?


http://blogdoescritorruycmara.blogspot.com.br/2017/03/a-carne-e-fraca-ou-forte.html
Fraca a carne não é! Tive o cuidado de fazer uma pesquisa sobre a celeuma que tomou conta do país e constatei o seguinte:

A JBS, maior processador mundial de carnes, foi fundada em 1953 e hoje administra 235 mil funcionários em suas 120 unidades no Brasil e 114 unidades no exterior, exportando para 150 países e gerando receitas líquidas (em 2016) na ordem de R$ 170,40 bilhões.

A Perdigão foi fundada em 1934; a Sadia em 1944. Para enfrentar o gigantismo mundial as duas empresas se fundiram em 2009 (BRF) e juntas administram hoje 105 mil funcionários em 35 unidades no Brasil e 19 unidades no exterior, exportando para 105 países e gerando receitas líquidas (em 2016) na ordem de R$ 37,7 bilhões.

Mas, diante do escândalo midiático enfocando corrupção de autoridade fiscal  a serviço dos produtores de proteína animal, logo me ocorreu perguntar: em sendo a carne um produto altamente perecível, por que motivo demandaram mais de 2 anos numa investigação sigilosa que envolveu 32 grandes empresas, e apenas um frigorífico (Peccin Agro Industrial) teve seus produtos analisados e alguns reprovados? O que há de fato por detrás de tudo isso e quem estará se beneficiando com o baque nas exportações brasileiras de proteínas?

A resposta veio no ato: as duas gigantes do Brasil injetaram na economia brasileira, somente em 2016, o montante de R$ 208,1 bilhões, um número fabuloso para a economia de qualquer nação do planeta, notadamente em se tratando dos nossos concorrentes da comunidade europeia, da Austrália, Índia, Estados Unidos e da América do Sul, no caso a Argentina e o Uruguai.

Para se ter uma ideia da robustez e dos incômodos que a indústria de processamento de carnes do Brasil vem causando aos seus concorrente no mundo, basta dizer que, com a desvalorização do Real frente ao dólar,  o setor cresceu 737% nos últimos 12 anos, produzindo atualmente 14 milhões de toneladas de proteína animal de alta qualidade e com um plantel de mais de 300 milhões de cabeças bovinas nos pastos!

Quem atua no setor de commodities sabe que, como não existem puritanos no disputadíssimo mercado mundial, muito menos nos governos nacionais, e como as aplicações matadoras (killer application) são práticas ancestrais de canibalismo mercantil entre grandes corporações que disputam a liderança dos mercados, pode-se deduzir que o esfolamento de marcas líderes, a sabotagem e o boicote de produtos de grande consumo humano, são os instrumentos mais comuns para o expurgo dos grandes produtores dos mercados em que estes lideram com folgas.

Blairo Maggi, Ministro da Agricultura do Brasil, afirmou hoje (20/03) que a generalização objetiva o caos do setor de produção de proteína animal; que do ponto de vista sanitário, a carne brasileira é muito bem certificada, muito bem comercializada e aceita no mundo inteiro; que não há registros de danos causados aos consumidores do Brasil e de outros países; que a PF demonstrou falta de conhecimento sobre as normas e regras que regem o setor e que a “narrativa” da PF está cheia de “fantasias” e “idiotices”.
Contrariando as informações divulgadas pelo MP e PF, os peritos do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal- Dipoa - afirmaram categoricamente que “a norma brasileira prevê” que carne de cabeça de porco é proteína de primeira qualidade e pode e deve ser utilizada em embutidos derivados de suínos. 

Afirmam ainda que o ácido ascórbico, divulgado pela PF como cancerígeno, “é vitamina C e é utilizado em processos industriais no Brasil e no mundo inteiro”. E quanto ao áudio sobre o papelão, está claro, claríssimo até, que os agentes envolvidos estão falando das embalagens e não de misturar papelão com a carne.

É fato que o pânico se disseminou nas redes sociais e tomou conta do povo brasileiro, afinal, a CORRUPÇÃO no Brasil se configura um "apriori" e um "aposteriori" que embasam todas as relações promíscuas entre políticos corruptos e empresários larápios, de tal modo que essa endemia continua se reproduzindo de forma avassaladora em quase todas as instâncias sociais e jurídico-políticas do Brasil, chegando a arremessar o país na lixeira moral da história das nações civilizadas e agora ameaça colapsar as receitas de moedas internacionais geradas pelas exportações do Brasil para o mercado mundial. (Leia-se o termo "apriori" como percepção através de causas e "aposteriori" como efeito a partir da causa pré-existente, ou seja, se sentimos os efeitos de algo, as causas devem preexistir.)

Claro que a PF e o MP vêm fazendo um trabalho exemplar nas diversas operações da Lava Jato, mas quanto a essa operação, denominada de carne fraca, ambos cometeram excessos e desatinos os quais, com toda certeza, prejudicaram seriamente a economia do país, as empresas nacionais e o contribuinte.

Foi sem dúvida um ato prejudicial porque, não há registro na história da humanidade de um único produto imprestável ou de má-qualidade que tenha sido capaz de conquistar a liderança do mercado mundial, principalmente no ramo de perecíveis ou de commodities.

Por esse motivo a questão que se discute de forma irracional nas redes sociais não pode ser tratada com o velhaco argumento petista de eles (os ricos e poderosas) sempre enganando e sugando o sangue dos pobres e oprimidos.  Se o Brasil conquistou a liderança mundial nas exportações de proteína animal é porque a nossa proteína é de excelente qualidade. Tanto é verdade que, quem poderia invalidar a qualidade dos produtos brasileiros são as autoridades fiscalizadoras dos 150 países importadores. Mas nunca o fizeram porque a carne produzida no Brasil é uma das mais saborosas do planeta, tem preços competitivos e excelente qualidade, ressalvando alguma exceção ou um caso isolado que pode ocorrer até mesmo com os sistemas eletrônicos da NASA.

Diante do que foi divulgado com estardalhaço nas mídias pelos investigadores, fiquei convicto de que a generalização foi um ato de imperdoável irresponsabilidade, uma vez o cerne da questão diz respeito ao pagamento de propinas a fiscais corruptos que facilitavam os trâmites burocráticos para as empresas, sem procederam com as inspeções de praxe dos produtos.

Felizmente hoje o governo afastou diversos servidores públicos e suspendeu temporariamente as licenças para exportação de 21 plantas de frigoríficos para inspeção. Com essa medida protetiva, as autoridades fiscalizadoras do Estado brasileiro terão condições de apurar, de investigar, de fiscalizar com profundidade e de provar com transparência se todos os fatos denunciados em cadeia nacional e internacional têm procedência. E se tudo restar comprovado, é dever do Estado punir severamente os culpados, devendo interditar ou mesmo fechar as empresas que comprovadamente adulteraram seus produtos, que burlaram as normas sanitárias e que comprometeram a saúde ou mesmo a vida da população com práticas de processamento reprováveis e inaceitáveis.

Mas se até o dia 18 de abril as autoridades sanitárias e fiscalizadores do Brasil e do mundo não encontrarem nos mercados, nos supermercados, lojas ou açougues, pelo menos uma tonelada de carne estragada, envenenada, podre ou misturada com papelão; e se não aparecer registros que comprovem cabalmente que os consumidores no Brasil ou do exterior se contaminaram com a carne processada pelos frigoríficos alvos da investigação do Ministério Público e Polícia Federal, com toda certeza, nós brasileiros, por incúria de alguns servidores públicos ou dos responsáveis pelo processamento dos produtos, seremos condenados a pagar, sem comer e sem beber, pelos danos morais e materiais que as empresas prejudicadas cobrarão do Estado Brasileiro, afinal, tanto o Ministério Público quanto a Polícia Federal representam o Estado nessa questão.


Ruy Câmara
Escritor sociólogo.