quarta-feira, setembro 29, 2010

A INCIVILIDADE DAS DESCULPAS

A INCIVILIDADE DAS DESCULPAS

Enquanto eu assistia os debates políticos na TV, ocorreu-me refletir sobre a palavra “DESCULPAS”, na acepção de SUBSTANTIVO FEMININO NO PLURAL, para denotar mais de uma desculpa ou mesmo variadas DESCULPAS.

De início inferi o óbvio, ou seja, que as DESCULPAS fazem parte da vida cotidiana das pessoas civilizadas e educadas. Você esbarra ou tropeça sem querer em alguém e um pedido de desculpa salta da sua boca quase que espontaneamente, como que por vontade própria.

Esse gesto se expressa pela necessidade humana de se reparar um erro ou de se anular civilizadamente uma ação involuntária que empertigou o outro. Percebe-se também que, quem tropeça em alguém na rua, sua reação reproduz o ato automático de pedir desculpa, às vezes até sem olhar para os lados, e o sujeito que trombou vai em frente com a sensação de haver feito o que devia ou com a impressão de que cumprira seu dever.

Mas quem pede DESCULPAS muita vez não se importa se de fato fora desculpado, porque, como é convencionado e aceito, o incivilizado ou deseducado é sempre aquele que não aceita uma desculpa. Eis, precisamente, o ponto chave desta reflexão. 

Ora, nós sabemos que as DESCULPAS podem ser empregadas também por oportunismo, esperteza e até mesmo levianamente, sobretudo na política, onde o ato de se desculpar por um delito ou falta cometida, denota e conota a confissão de culpa e, via de regra, confessar uma culpa não condiz com a índole dos políticos do Brasil.   

Entretanto, é na política, precisamente, o solo fértil para a deformação dessa palavra tão SUBSTANTIVAMENTE FEMININA, seja por necessidade de se encobrir um delito, seja para respaldar uma atitude injustificável, ou ainda para simplesmente mascarar a verdade dos fatos de forma tão leviana, quanto educada e civilizada. 

No sentido de JUSTIFICATIVAS, as DESCULPAS podem ser um mero pretexto ou subterfúgio para alguém muito astuto impor a verdade que lhe interessa, mesmo mentindo. A inversão do recurso da desculpa configura mentira e a mentira, como sabemos, tornou-se uma prática corriqueira na política brasileira, instância através da qual todos aprendem a tirar o máximo proveito da simbiose mimética e ilusória que compota numa DESCULPA ou numa MENTIRA.  

Diante disso, fica claro que precisamos de uma vacina para eliminar o vírus da DESCULPA inoculado nos espíritos de tantos que prometeram e descumpriram, tornaram a reprometer e novamente não cumpriram, e agora, ao serem instados a esclarecer algo repudiável, eis que o marketing político inventa um desculpa fajuta e o delinqüente acaba ludibriando a boa-fé geral e ainda ganha aplausos.

Não raro, temos visto gente graúda da política nacional e local "dando” DESCULPAS e não “pedindo” DESCULPAS, confiante de que assim conseguirá distrair a atenção geral das denúncias feitas pela imprensa e também através de operadores de negócios ilícitos, denúncias que precisam ser explicadas com VERDADES substantivas e não com arrogo ou prepotência de quem tromba com alguém na rua e segue sem olhar para os lados.

Ora, num ambiente politicamente civilizado, não cabe a incivilidade da uma DESCULPA fajuta. Provado está que, uma vez repudiada pelo Povo, nenhuma desculpa fajuta se sustentará diante da verdade. Ao contrário das DESCULPAS que aceitamos cotidianamente por educação, a recusa de aceitarmos DESCULPAS na política é uma atitude das mais civilizadas, e tal atitude deve ser expressada no instante do VOTO. Quando a sociedade brasileira compreender que no exercício do poder não comporta DESCULPAS, nenhum delinqüente da política brasileira dará DESCULPAS FAJUTAS ao eleitor IMPUNEMENTE.  

Ruy Câmara
Escritor e sociólogo