quinta-feira, novembro 15, 2012

Elegia à Ray-Güde Mertin

 


HOJE, 15/12/2013 COMPLETAM EXATOS 7 ANOS


Ray-Güde Mertin, tradutora de diversos autores importantes da língua de Camões para a língua de Goethe, é reconhecida nas altas cortes das letras internacionais como a Agente Literária mais influente do planeta, responsável pelo êxito universal e por um pedaço do Nobel de José Saramago e de outros autores talentosos que cultuamos e admiramos em diversas línguas. 



Graças aos meus amigos, Nora e António Skármeta (autor do célebre e belo 'O Carteiro e o Poeta', obra que reinventou Dom Plablo Neruda no cinema e arrepanhou um Oscar da Academia) conheci Ray-Güde, de quem me afeiçoei no primeiro instante, e creio que, pelo que restou das nossas trocas epistolares, a recíproca também foi verdadeira. 


No dia 15 e novamente no dia 29 de dezembro de 2006 eu e Rossana tivemos a alegria de receber o casal, Ray-Güde e Dietz Mertin, para uns drinques de fim de tarde em nossa varanda à Beira Mar. Infelizmente ela não estava bem de saúde e nada pôde comer nem beber, sofrendo ainda os efeitos terríveis da reincidência de uma doença cruel, de cujo nome é bom e prudente não pronunciá-lo jamais. 

Apesar da fragilidade, Ray-Güde conversava alegremente e se divertia vendo-nos, eu e Dietz, contando histórias e bebendo sem medida. Ao morrer daquela tarde, erguemos um brinde à nossa amizade, outro à nossa saúde, e eternizamos o nosso encontro nas fotos que fizemos, tendo ao fundo as velas do Mucuripe. 

Sentada à escrivaninha, no meu posto de observação do mundo, ouvimos Ray-Güde nos dizer, com entusiasmo, que estava feliz e realizada com a compra de um sítio no Eusébio (há 20 km de nossa casa), seu segundo endereço, onde plantaria trezentas mudas de sapoti. 

A noite ébria já se adiantava quando Dietz e Ray nos abraçaram, despediram-se e se foram para o sítio, deixando-nos a promessa de que teríamos um novo encontro no princípio de 2007, num churrasco que nos seria oferecido em sua chácara do Eusébio . 

No dia 03 de janeiro Dietz ligou e confidenciou-me que Ray-Güde estava muito debilitada e que não seria possível o churrasco. Em seguida me disse que Ray não poderia enfrentar uma travessia oceânica e que o médico lhe havia recomendado a internação imediata numa clínica aqui em Fortaleza. Às 16 h daquela mesma tarde fui vê-la no hospital. Olhando para ela, tão magrinha e frágil, deitada num leito frio, vi que dormia profundamente, por certo distante de tudo o que nos afligia. 

No dia seguinte Dietz ligou-me novamente e me avisou que Ray havia recuperado um pouco mais de forças e que manifestara o desejo sincero de regressar à Alemanha.

Dois dias depois ele me escreveu um e-mail, dando conta de que chegaram bem em Frankfurt, e que Ray-Güde estava sendo assistida por médicos de sua confiança. Infelizmente o destino nos surpreendeu com um duro golpe. 

No alvor do dia 14 de janeiro a luta que Ray-Güde travava contra a morte chegou ao fim e minha esperança de poder revê-la novamente já não é possível, senão e apenas nessas imagens que fizemos num momento que agora se torna eterno e único no meu percurso, certamente as últimas imagens em que Ray-Güde aparece sorrindo, um sorriso que não deixou sequer vestígio de sofrimento ou dor. 

Pensando como a morte é cruel e traiçoeira, passei as últimas duas noites contorcendo-me com essa anipinia medonha. Rossana, que tanto se afeiçoou à Ray, fez-me companhia até a alta madrugada, mas foi vencida pelo meu silêncio entediante.

Em verdade ainda estamos aturdidos e consternados com o ocorrido. Para mim, ela se foi quase viva, pois entre nós não houve sequer despedida. E aqui, peço venha ao Dietz, aos seus filhos Moritz e Nikolas e a todos os continuadores da Agência de Frankfurt, para eligiar Ray-Güde Mertin, com a meditativa exatidão dos meus sentimentos. 

Adeus, senhora Ray. Adeus! 
Minha tristeza insiste nesse adeus bisonho,
Um adeus tão tíbio,
Mas teu espírito continua vivo,
Rabiscando à escrivaninha onde componho.

Adeus, senhora Ray. Adeus.
Que teus planos e cinzas fertilizem as vinhas nas curvas eternas do Reno,
Eternidade daninha,
Mas teu rastro pequenino pode ser seguido aonde um sonho se quer pleno.

Adeus, senhora Ray. Adeus.
Dentro do peito, aperta-me o coração aflito,
E sinto no que ficou do teu abraço amigo,
O calor dos sonhos que entre nós se finda.

Eis-me aqui,
Desiludido diante da tua imagem, senhora Ray,
Revivendo o que restou de um dia eterno e único,
Curvado e tenso como um arco em riste,
Fitando da varanda esse mar medonho,
Ouvindo a brisa a soprar-me um bafo triste,
Sob um teto estranho que chora em garoa fina.

Adeus minha querida, Ray.
Adeus e até um dia desse! 

Ruy Câmara