quarta-feira, agosto 23, 2017

REENCONTRANDO NIETZSCHE



No dia 25 de agosto de 1900 a filosofia perderia uma das suas referências mais sólidas: Friedrich Wilhelm Nietzsche. 

Em abril deste ano conturbado (2017) eu tive o prazer de visitar a casa onde Nietzsche nasceu em 1844, onde cresceu e onde dormem  os seus restos mortais, ao lado de um igreja católica em ruínas. A casinha modesta onde o filósofo vivera seus momentos criativos e agônicos, localiza-se na fria e diminuta Röcken, Alemanha, antigo Reino da Prússia, entre Dresden e Weimar. 

Surpreendeu-me constatar que, enquanto a Alemanha ganha corpo de potência econômica diante do mundo, aquele povoado só regrediu ao longo do tempo e hoje é um vilarejo com no máximo 700 habitantes, um lugar encafuado no distrito de Weißenfels, estado de Saxônia-Anhalt, tendo perdido em 2009 seu estatuto de município e sido rebaixado para a condição de vilerejo, fazendo parte da vila de Lützen.

Durante a minha visita de pesquisas à casa de Nietzsche e de outros vultos germânicos que edificaram a literatura e as artes ao longo dos séculos, eu tive a viva impressão de que naquele vilarejo triste, qualquer autodidata pensativo ou qualquer homem de cultura, morreria igualmente triste e sorumbático, tal como Nietzsche morrera, de tédio e solidão. (Ruy Câmara)

"Verdadeiro eu chamo àquele que entra nos desertos vazios de deuses... Nas areias amarelas, queimadas de sol, sedento, ele vê as ilhas cheias de fontes, onde as coisas vivas descansam debaixo das árvores. Não obstante, a sua sede não o convence a tornar-se como um destes, habitantes do conforto e desejosos de riquezas; pois onde há um oásis, aí também se encontram os ídolos." Nietzsche

Breve relato-pesquisa acerca do pensamento de Nietzsche:

Nietzsche era um crítico das "ideias modernas", da vida e da cultura moderna, do neo nacionalismo alemão. Para ele, os ideais modernos como democracia, socialismo, igualitarismo, emancipação feminina não eram senão expressões da decadência do "tipo homem". Por estas razões, é, por vezes, apontado como um precursor da pós-modernidade.

Na obra nietzschiana, a proclamação de uma nova moral contrapõe-se radicalmente ao anúncio utópico de uma nova humanidade, livre pelo imperativo categórico, como esperançosamente acreditava Kant. 

A vida de Friedrich Nietzsche foi tão vigorosa e tumultuada quanto sua filosofia. Viveu boa parte do seu tempo criativo quase como um ermitão. Sempre isolado, passou de gênio a louco, sofreu com duras críticas de acadêmicos da época e suportou o peso da carreira acadêmica ainda jovem. No início, grande amigo de Wagner, no fim, ódio ao antissemitismo wagneriano: Nietzsche foi um mar de provocações e inventividade.

Para Nietzsche, a liberdade não é mais que a aceitação consciente de um destino necessitante. O homem libertado de qualquer vínculo, senhor de si mesmo e dos outros, o homem desprezador de qualquer verdade estabelecida ou por estabelecer e estar apto para se exprimir a vida, em todos os seus atos - era este não apenas o ideal apontado por Nietzsche para o futuro, mas a realidade que ele mesmo tentava personificar.

Viver é manter-se preparado através de imbricações incessantes entre os seres vivos, através da luta entre vencidos que gostariam de sair vencedores, e vencedores que podem a cada instante serem vencidos e, por vezes, já se consideram como tais antes do final do combate.

Neste sentido, a vida para Nietzsche é vontade de poder ou de domínio ou de potência. Vontade essa que não conhece pausas e a vida real é tudo e tudo se esvai diante da vida imaginada. Não existe vida média, segundo Nietzsche, entre aceitação da vida e renúncia. Para salvá-la, é mister arrancar-lhe as máscaras e reconhecê-la tal como é: não para sofrê-la ou aceitá-la com resignação, mas para restituir-lhe o seu ritmo exaltante, o seu merismático júbilo.

O homem é um filho do "húmus" e é, portanto, corpo e vontade não somente de sobreviver, mas de vencer e de dominar. Essa é a essência mais absoluta da natureza humana e suas verdadeiras "virtudes" são: o orgulho, a alegria, a saúde, o amor sexual, a inimizade, a veneração, os bons hábitos, a vontade inabalável, a disciplina da intelectualidade superior e a vontade de poder.

Mas essas virtudes são privilégios de poucos, e é para esses poucos que a vida é feita. De fato, Nietzsche é contrário a qualquer tipo de igualitarismo e, principalmente, ao disfarçado legalismo kantiano, que atenta para o bom senso através de uma lei inflexível, ou seja, o imperativo categórico: "Proceda em todas as suas ações de modo que a norma de seu proceder possa tornar-se um exemplo universal".

Essas críticas se deveram à hostilidade de Nietzsche em face do racionalismo, que logo refutou como pura irracionalidade. Para ele, Kant nada mais é do que um fanático da moral, uma tarântula catastrófica.

Aforismos:

"Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal."
"Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura."
"Torna-te quem tu és!"
"Cada pessoa tem que escolher quanta verdade consegue suportar"
"Nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos e de nós mesmo somos desconhecidos."
O idealista é incorrigível: se é expulso do seu céu, faz do seu inferno um lugar ideal para viver."
"Em qualquer lugar onde encontro uma criatura viva, encontro desejo de poder."
"Um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos."
"Não me roube a solidão sem antes me oferecer uma verdadeira companhia."
"O amor é o estado mental no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são."
"O Evangelho morreu na cruz."
"Quando se coloca o centro de gravidade da vida não na vida mas no "além" - no nada -, tira-se da vida o seu centro de gravidade."
"Para ler o Novo Testamento é conveniente calçar luvas para não sujar os dedos. Diante de tanta sujeira, tal atitude é necessária."
"O cristianismo foi, até o momento, a maior desgraça da humanidade, por ter desprezado o Corpo."
"As convicções são cárceres e são as inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras."


Na obra, Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém a trama é centrada na figura do sábio solitário Zarathustra, o conceito do super-Homem surge necessário quando o homem já não mais se identifica com os seus semelhantes e com os demais homens. A necessidade da superação, reafirmando os valores imutáveis da natureza (como a força vital, o amor e o devir) tornam-se indispensáveis para que não se perca a própria identidade em meio ao caos do mundo, mesmo que isso não seja aceito ou bem interpretado pela sociedade.