domingo, abril 17, 2011

Ou Dante ou Nada


Ou Dante ou Nada

Dedico as linhas ao amigo e mestre, Gerardo Mello Mourão.



Tudo o que acontece na vida sucede por alguma circunstância criada antes. Foi o que me ocorreu pensar nesta manhã, ao acordar propenso a refletir um pouco sobre a vida com seus problemas, reais e imaginários.

Assim como os demais mortais, raramente consigo pensar na vida em separado das circunstâncias que me afligem a cada vez que tomo consciência da complexidade de elaborar nesse terreno. Ora, começar o dia pensando na vida parece coisa de quem não tem algo mais produtivo a fazer. Essa é a lógica que governa o mundo, no qual viver é estar sempre ocupado. Talvez por isso as coisas reais, os lugares reais e as pessoas reais, estão perdendo muito dos seus significados.

Agora mesmo dou-me à pachorra de lembrar as quatro últimas vezes em que ousei gastar um dia para refletir sobre minha vida e, consequentemente, num modo de dotá-la de outros significados. A primeira vez ocorreu quando me vi compelido a ignorar uma vocação real para seguir uma carreira socialmente promissora que, na ótica dos meus pais, me asseguraria uma velhice confortável e tranquila. A segunda vez foi quando me vi contingenciado a deixar o lar paterno para cumprir um compromisso matrimonial que sabidamente não resistiria ao primeiro duelo de temperamentos. A terceira vez foi quando uma tempestade cambial me fez refém das armadilhas do sistema financeiro nacional e, logo puseram meu nome na vala dos imprestáveis ao sistema por longos seis meses, fato que me ensejou o direito de reaver na Justiça as reparações de danos morais e materiais que me causaram. A quarta e última vez foi, precisamente em 1992, quando me vi bifurcado entre dois rumos e comecei a garimpar no vazio da minha existência em busca do que ainda poderia restar da minha primitiva vocação de escritor.

Aturdido com aflições de toda ordem, recorri aos conselhos do poeta oracular, Gerardo Mello Mourão, que me disse algo ainda mais perturbador: Ruy, prossiga resistindo. Quem tem vocação real para as letras o lema é: ou Dante ou nada.

Treze anos se passaram para que eu pudesse, finalmente, compreender o significado exato daquelas palavras. Hoje, enquanto ideava sobre um tema para inaugurar um semanário, pude reviver todos aqueles momentos sufocantes e indecisos em que eu não sabia que rumo deveria tomar. E como foi difícil romper a lógica para recomeçar. Parece certo dizer que viver é estar sempre recomeçando. Mas como é terrível a sensação de recomeçar do nada, como por exemplo, a partir de uma página em branco, tendo em mente a máxima de um poeta absoluto: Ou Dante ou nada.

Ora, leitor, uma página em branco é o vazio absoluto e nada é mais absoluto do que o vazio. Contudo, no vazio de uma página comporta um ser com toda a sua carga de dúvidas e aflições. Tanto é verdade que agora já não sei se estou confortavelmente abrigado, ou se estou severamente oprimido, tratando de um tema tão complexo.

Do ponto de vista da lógica vigente, esse tema parece vazio de sentido e conteúdo. Parece que sim, mas foi demolindo, uma a uma, as lógicas ensinadas em casa, na escola, na universidade e no trabalho, que consegui ampliar o horizonte que se abria dentro de mim próprio, enquanto eu sofria e pensava. E quem de nós, pelo menos uma vez na vida, já não se sentiu assim?

Mas a vida, a vida real do ser, deve ser esse vazio que sentimos no íntimo das nossas fibras. O vazio é o próprio ser que não se preenche nunca, com nada. A questão é como tirar do nada a substância para preencher o próprio vazio. Reter em si tal substância é o problema do ser enquanto enigma de si mesmo. E aqui peço permissão ao leitor para aludir a uma carta do poeta Gerardo (que posteriormente serviu para a orelha de um livro primoroso, intitulado A Santa Oca, graças à pena da poetisa Flávia Portela), na qual me dizia ele que o vazio do ser, o oco interior do ser, se assemelha ao oco de um copo. O copo é uma casca de vidro ou de matéria plástica e fora dessa casca o que há é espaço. Assim somos nós. Fora da nossa casca nada há. Então, o que existe no íntimo do ser é um imenso vazio que espera ser preenchido com algo essencial. Basta uma alegria, uma abstração, uma palavra ativa ou mesmo o despertar de um sentimento, e logo o vazio se preenche para, novamente, voltar ao estado anterior.

Esse efeito parece surreal, mas é real. Não há dúvida que o vazio e o pleno são os fundamentos em contradição permanente na vida, na arte de viver e em todas as artes que embelezam as nossas existências. O poeta me fez ver que a pintura, por exemplo, carece do vazio, do não pintado, para ser arte. Uma obra de arte passa a existir a partir do seu vazio. A substância da arte é o vazio pintado. Na música, por exemplo, o vazio se preenche num átimo de silêncio em que as notas se apartam e se fragmentam, produzindo os sons buscados pela harmonia do ritmo e pela melodia. A dança, em si, é o espaço vazio onde o bailarino, de repente, planta os pés em movimento. O fragmento de tempo que dura essa imagem de vazio preenchido pelo corpo em movimento é a dança propriamente dita.

Portanto, a vida, dentro do oco da vida, como no oco dos copos, dos homens, no vazio da página em branco, da tela, do palco e em todos os vazios, comporta a vida vazia de um ente que se preenche com qualquer substância essencial, seja real ou lúdica.
E para ser conciso, hoje eu creio, por experiência vivida que, viver é dotar de sentido o que aparentemente não faz sentido algum, como por exemplo, quando ignoramos certas lógicas, ou como queria o poeta: viver é sentir nas próprias fibras aquilo que os outros imaginam ter sentido, porque, enfim, a arte de viver, é um eterno preencher de vazios. É a máxima da vida, recomeçar sempre, mesmo que seja para preencher o vazio desta página, ou desta manhã.

Ruy Câmara

Texto composto pelo autor numa manhã chuvosa de 2004.