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quinta-feira, julho 21, 2016

O GUARDIÃO DAS LETRAS, SERGIO MACHADO

É com profunda tristeza que escrevo estas linhas em elegia ao meu editor no Brasil, Sergio Machado (1948-2016), presidente do Grupo Editorial Record, falecido na madrugada desta quarta-feira (20/21 de julho de 2016), aos 68 anos, em decorrência de uma cirurgia feita em novembro de 2015, no Rio de Janeiro, para a retirada de um intruso orgânico na meninge.

O garoto Sergio Machado tinha 6 anos de idade quando seu pai, Alfredo Machado, em sociedade com seu tio, Décio Abreu, plantaram em 1942 a semente de uma distribuidora de quadrinhos e serviços de imprensa que viriam a se tornar mais tarde, o maior conglomerado editorial da América Latina. 

Aos 24 anos, o jovem economista, Sergio Machado, estava infeliz na mineradora Vale do Rio Doce, em Vitória - Espírito Santo e retornou ao Rio de Janeiro para trabalhar com seu pai, suprindo com desenvoltura a lacuna deixada pelo seu tio, Décio Abreu, que havia se desligado da empresa em 1970. 

Naquela época, Sergio Machado deve ter visto tantos homens de letras pobres e desprezados pela sociedade, que preferiu não ser mais um a aumentar esse número. Seu teste de fogo ocorreu no dia 17 de agosto de 1977, por ocasião do lançamento do romance "Tieta do Agreste", de Jorge Amado. O ainda aprendiz de editor, produziu um tremendo impacto midiático no Rio de Janeiro, colocando um avião para sobrevoar as praias cariocas, propagandeando o livro. Em poucos dias a obra do escritor baiano se tornou um sucesso de público e de vendas. 

Em 1991, seu pai e preceptor faleceu e Sergio Machado, conservando a vocação paterna para os livros e finanças, assumiu o comando da empresa ao lado de sua irmã, Sônia Machado Jardim. Desde então o grupo Record não parou de crescer, nem de inovar, tornando-se vanguardista em infraestrutura, em aquisições de empresas e de selos, de novas tecnologias, em logística e, sobretudo, na contratação de autores nacionais e estrangeiros, consagrados e estreantes, tonando-se uma empresa 100% brasileira e líder absoluta em vários segmentos editoriais, notadamente no segmento dos não-didáticos.

É consenso entre os autores, editores e agentes literários do mundo que, inobstante a expertise como empresário, o senso de oportunidade, a seriedade e a sensibilidade para reconhecer talentos, Sergio Machado não considerava o seu trabalho enfadonho, já que passava a maior parte do seu tempo isolado do mundo e açoitado pela urgência editorial e não se aborrecia se a sua rotina era tão previsível quanto a de um relógio na parede. 

E foi assim que ele ampliou muitas vezes o negócio herdado do pai, transferindo agora para seus sucessores uma diversidade de empresas e de selos editoriais que estampam com prestígio mais de 8 mil títulos ativos nos catálogos das editoras do grupo, a saber: Bertrand Brasil, José Olímpio, Civilização Brasileira, Paz e Terra, Verus, BestSeller, Best Business, BestBolso, Rosa dos Tempos, Nova Era, Viva Livros, Difel e os selos Galera Record e Galerinha Record. 

Além da publicação das obras de vários autores agraciados com o Prêmio Nobel de Literatura, e também de autores de obras geniais que esperam a descoberta dos leitores, a aposta mais bem sucedida e que colocou o grupo Record na liderança do mercado editorial, foi a aquisição de um moderno equipamento de impressão (Sistema Poligráfico Cameron) único no continente, capaz de produzir até 100 livros de 200 páginas por minuto, seja de ficção; narrativas históricas e científicas; ensaios culturais, sociológicos, literários e filosóficos; reportagens; romances policiais e de suspense, literatura feminina e quadrinhos. O desafio que ele não pode concretizar, mas certamente o será pela sua sucessora, Sônia Machado, era adequar o grupo editorial aos novos tempos da era digital.

Sergio Machado foi verdadeiramente um editor exemplar, arrojado e muito corajoso. Em 2004 eu estava na Flip, em Parati, perguntando-me intrigado: por que motivo a Record não está participando? No dia seguinte, já me sentindo um penetra e sem saber porque todos os autores da Record foram proscritos do evento, li na imprensa uma nota de protesto do Sergio Machado dando conta de que o Grupo Record não participaria com seus autores daquele oba-oba, porque se tratava de um evento para atender aos interesses da Cia da Letras. 

Apenas para avivar as memórias de alguns pobres bonifrates que se presumem merecedores de prêmios e de glórias fictícias, em 2011 eu tive o prazer de enviar uma mensagem de apoio ao meu editor, parabenizando-o pela coragem de enfrentar a comissão do prestigiado Prêmio Jaboti, por discordar do prêmio que fora dado (sabe-se lá a que título) ao sambista Chico Buarque de Holanda, já que os jurados o classificaram em 2º lugar na categoria Romance. 

Sergio Machado não recuou nem mesmo diante dos boicotes da camarilha que se amotinou e dilapidou a nação nas sombras do poder. Tanto é verdade que os operadores dos negócios culturais públicos jamais conseguiram impedir que as suas editoras publicassem as obras de um punhado de autores que desde 2002 combatem as organizações criminosas que tomaram o Brasil de assalto, dentre esses autores me incluo com a meditativa exatidão das minhas convicções. 

Sabemos que Sergio Machado vinha há muitos anos escrevendo seu livro de memórias (onde estarão esses manuscritos biográficos?) mas, infelizmente, quis a flecha do destino interromper sumariamente o seu processo criativo, privando o mundo e essa nação empobrecida por incúria de governos corruptos, de um convívio mais perene com as suas ideias e convicções, suas crenças e desafios, suas vitórias e problemas, seus amores e suas dores. 

Ouçamos o que diz a querida amiga, Luciana Villas-Boas, editora responsável pela minha estreia na literatura e diretora editorial do grupo até 2012: "Enquanto Alfredo Machado atraiu para a editora grandes nomes da literatura brasileira já consagrados, como Graciliano Ramos e Carlos Drummond, na gestão de Sergio a Record criou seus próprios autores, muitos deles hoje já quase canônicos".

Nosso editor cumpriu com plenitude e autarcia o seu papel neste mundo velho, e hoje fez a sua viagem para a morada dos imortais, deixando sua mulher, Maria do Carmo, suas três filhas e três netos com a missão de continuarem a caminhada iniciada em período negro da história da humanidade, quando as nações se matavam umas às outras por muito pouco ou quase nada.  

Durante o velório de Sergio Machado no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, sua irmã, sucessora e agora presidente do grupo, Sônia Machado, disse com solene ternura e convicção: "meu irmão deixa um legado e uma missão: a valorização dos nossos autores, que é o grande patrimônio da Record". 

Sônia Machado, quem um dia deu-me a honra de testemunhar a minha premiação na Academia Brasileira de Letras, tem ao seu lado, Roberta Machado e Rafaella Machado, que já trabalham no grupo e atuam, uma como diretora comercial e a outra como editora do selo Galera Record. Que levem adiante o sonho do nosso editor de fazer por puro desejo o melhor, cuidando pessoalmente das edições dos autores que tanto nos encantam e nos inspiram com as suas luzes possantes. 

Hoje o Brasil deveria ter as suas bandeiras (verde-amarela-azul-branco) hasteadas a meio mastro, como um gesto de gratidão ao Editor que dedicou grande parte da sua vida à produção de livros, ou melhor, ao mais eficiente instrumento para civilizar as gerações com palavras e conhecimento.

Ruy Câmara
Escritor







segunda-feira, junho 20, 2016

CRÔNICA DA DELAÇÃO SUPERPREMIADA DE SERGIO MACHADO.

Conheci Sergio Machado nos anos 80, ao tempo em que atuávamos na iniciativa privada e associações de classe, com o propósito de consolidar no Ceará o 2º maior polo da indústria têxtil do Brasil. E o Estado conseguiu e depois destruiu. 

Em 1987, enquanto Eu e muitos outros empresários nos ocupávamos com a produção de manufaturados e negócios de exportação, os rapazes do CIC (Centro Industrial do Ceará), liderados por Tasso Jereissati, Sergio Machado, Beni Veras e outros, ingressaram na vida pública, ganharam as eleições e tomaram as rédeas do governo do Ceará. 


Mas, no final daquela década conturbada a economia brasileira começou a sofrer severamente as inconsequências dos planos econômicos mais desastrados da história (plano cruzado, plano Bresser...) e a indústria manufatureira do Brasil afundou durante o governo Sarney, levando para o abismo milhares de empresas comerciais de todos os portes e setores da economia.



Em 1992, Fernando Collor de Mello gritou do palácio que o Ceará já era uma referência e um exemplo de gestão pública a ser seguido pelo Brasil. Enquanto todos nós aplaudíamos as proezas políticas dos rapazes do CIC Eu, em meio a mais uma crise econômica e política que se abatia ferozmente sobre o país, decidi me afastar dos negócios, apurei uns trocados e passei a me dedicar exclusivamente aos livros. 



Naqueles anos perversos e adversos para quem produzia, Sergio Machada enfrentava muitas dificuldades financeiras, mas com o apoio de Tasso Jereissati e outras lideranças do Estado, ele elegeu-se deputado federal, depois elegeu-se senador da república pelo PSDB; e eu permaneci encafuado na minha biblioteca por 11 anos, sem me deixar contaminar com as questões do mundo empresarial e político.  


Em abril de 2002, Sergio Machado (senador em fim de mandato e relator do orçamento da União) apareceu na minha casa na companhia do seu filho, Daniel Machado, e falou-me com entusiasmo dos seus planos políticos, dos conflitos de interesses com os seus ex-aliados do CIC, falou-me das dificuldades eleitorais que enfrentaria, já que Tasso Jereissati, Ciro Gomes e outros, decidiram apoiar o senador tucano, Lúcio Alcântara, hoje um dileto amigo a quem prezo muitíssimo. 

Poucos dias depois dessa visita reunimos um grupo de apoiadores da sociedade civil, instalamos o comitê central de campanha em minha casa, escrevemos a dez mãos um consistente plano de governo e lançamos Sergio Machado ao governo do Ceará. Durante 6 meses de canseira e de convivência intensa com sua família (esposa, filhos, irmãos e seus pais) a nossa amizade se fortaleceu, fortalecendo mais ainda a nossa convicção de que Lula e o PT seriam um desastre para o país. 

É verdade que lutamos com afinco contra todas as forças contrárias ao nosso projeto (e eram muitas e bem mais poderosas), mas a escassez de recursos financeiros prejudicou a campanha na reta final e Sérgio Machado perdeu as eleições para Lúcio Alcântara, o candidato do PSDB que mais tarde viria a romper com os patrocinadores da sua vitória: Tasso, Ciro e outros líderes locais. 

Em 2003 vieram as compensações que aplacaram de certo modo a derrota de 2002. O meu romance de estreia na literatura foi publicado e em seguida agraciado com os prêmios máximos da literatura brasileira; e Sergio Machado, com o apoio de Renan Calheiros e de outros líderes do PMDB, foi escolhido por Lula para dirigir a Transpetro. 

A notícia me alegrou de verdade, afinal, Sérgio Machado estava sem recursos e carecia se refazer do tombo. Mas ao saber que seu partido (PMDB) estava completamente seduzido pelas facilidades do poder e que passaria a dormir no covil de promiscuidade do PT, preferi me manter distante do novo projeto do Sergio Machado, chegando a dizer para três amigos que ocupariam os cargos de comando na Transpetro, que eu continuaria escrevendo livros e fazendo oposição a Lula e ao PT. 

Naquela época o genial Beni Veras, um amigo da iniciativa privada que Tasso Jereissati escolhera como seu vice-governador, cunhou uma frase na FIEC que se tornaria icônica e trágica: Seu amigo Sergio Machado sairá da Transpetro rico ou preso. 

Confesso que à época eu cheguei a pensar que o meu amigo Beni Veras estava com inveja do Sergio, afinal, comandar uma Transpetro era muito mais fácil do que dirigir um Estado pobre, endividado e com problemas em todas as suas área finalísticas. 

Após 13 anos sem nenhum contato pessoal com Sergio Machado, não por intriga, mas porque o meu ofício de escritor exige reclusão, eis que seu nome, sua imagem e sua trama delatora estouraram no noticiário do Brasil como uma bomba, e só então eu percebi que, cumprira-se com plenitude e autarcia o vaticínio do sábio e probo, Beni Veras: Sergio Machado foi mesmo banido da Transpetro, rico e preso. 

Ruy Câmara

http://blogdoescritorruycmara.blogspot.com.br/2016/06/cronica-da-delacao-superpremiada-de.html