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quarta-feira, janeiro 08, 2014

O 'PERIGO VERMELHO'

Retiraram o corpo de João Goulart da sepultura para examiná-lo. Coisa deprimente, os legistas examinando ossos de 40 anos atrás para saber se foi envenenado. Mas havia também algo de um ritual de ressurreição encenada. Jango voltava para a turma que está no poder e que se considera vítima de 1964 até hoje. Só pensam no passado que os ‘legitima’ com nostalgia masoquista de torturas, heranças malditas, ossadas do Araguaia, em vez de fazerem reformas no Estado paralítico e patrimonialista.

Querem continuar a ‘luta perdida’ daqueles tempos ilusórios. Eu estava lá e vi o absurdo que foi aquela tentativa de ‘revolução’ sem a mais escassa condição objetiva. Acuaram o trêmulo Jango, pois até para subversão precisavam do governo. Agora, nossos governantes continuam com as mesmas ideias de 50 anos atrás. Ou mais longe. Desde a vitória bolchevique de 1921, os termos, as ilusões são as mesmas. Aplica-se a eles a frase de Talleyrand sobre a volta dos Bourbons ao poder: "Não aprenderam nada e não esqueceram nada".

É espantosa a repetição dos erros já cometidos, sob a falácia do grande ‘teólogo’ da História, Hegel, de que as derrotas não passam de ‘contradições negativas’ que levam a novas teses. Esse pensamento justificou e justifica fracassos e massacres por um ideal racional. No PT e aliados como o PC do B há um clima de janguismo ou mesmo de ‘brizolismo’, preferência clara da Dilma.

Brizola sempre foi uma das mais virulentas e tacanhas vozes contrárias ao processo de desestatização.

Mas, além dessas mímicas brasileiras do bolchevismo, os erros que querem repetir os comunistas já praticavam na época do leninismo e stalinismo: a mesma postura, o mesmo jargão de palavras, de atitudes, de crimes justificados por mentiras ideológicas e estratégias burras. Parafraseando Marx, "um espectro ronda o Brasil: a mediocridade ideológica".

É um perigo grave que pode criar situações irreversíveis a médio prazo, levando o País a uma recessão barra-pesada em 14/15. É necessário alertar a população pensante para esse ‘perigo vermelho’ anacrônico e fácil para cooptar jovens sem cultura política. Pode jogar o Brasil numa inextrincável catástrofe econômica sem volta.

Um belo exemplo disso foi a recusa do Partido Comunista Alemão a apoiar os social-democratas nas eleições contra os nazistas, pois desde1924 Stalin já dizia que os "social-democratas eram irmãos gêmeos do fascismo".

Para eles, o ‘PSDB’ da Alemanha era mais perigoso que o nazismo. Hitler ganhou e o resto sabemos.

Esta semana li o livro clássico de William Waack Camaradas, sobre o que veio antes e depois da intentona comunista de 1935 (livro atualíssimo que devia ser reeditado), e nele fica claro que há a persistência ideológica, linguística, dogmática e paranoica no pensamento bolchevista aqui no Brasil. A visão de mundo que se entrevê na terminologia deles continua igual no linguajar e nas ações sabotadoras dos aloprados ao mensalão - o fanatismo de uma certeza. Para chegar a esse fim ideal, tudo é permitido, como disse Trotski: "A única virtude moral que temos de ter é a luta pelo comunismo". Em 4 de junho de 1918, declarou publicamente: "Devemos dar um fim, de uma vez por todas, à fábula acerca do caráter sagrado da vida humana". Deu no massacre de Kronstadt em 21.

No Brasil, a palavra "esquerda" continua o ópio dos intelectuais. Pressupõe uma "substância" que ninguém mais sabe qual é, mas que "fortalece", enobrece qualquer discurso. O termo é esquivo, encobre erros pavorosos e até justifica massacres. Temos de usar "progressistas e conservadores".

Temos de parar de pensar do Geral para o Particular, de Universais para Singularidades. As grandes soluções impossíveis amarram as possíveis. Temos de encerrar reflexões dedutivas e apostar no indutivo. O discurso épico tem de ser substituído por um discurso realista, possível e até pessimista. O pensamento da velha "esquerda" tem de dar lugar a uma reflexão mais testada, mais sociológica, mais cotidiana. Weber em vez de Marx, Sergio Buarque de Holanda em vez de Caio Prado, Tocqueville em vez de Gramsci.

Não tem cabimento ler Marx durante 40 anos e aplicá-lo como um emplastro salvador sobre nossa realidade patrimonialista e oligárquica.

De cara, temos de assumir o fracasso do socialismo real. Quem tem peito? Como abrir mão deste dogma de fé religiosa? A palavra "socialismo" nos amarra a um "fim" obrigatório, como se tivéssemos que pegar um ônibus até o final da linha, ignorando atalhos e caminhos novos.

A verdade tem de ser enfrentada: infelizmente ou não, inexiste no mundo atual alternativa ao capitalismo. Isso é o óbvio. Digo e repito: uma "nova esquerda" tem de acabar com a fé e a esperança - trabalhar no mundo do não sentido, procurar caminhos, sem saber para onde vai.

No Brasil, temos de esquecer categorias ideológicas clássicas e alistar Freud na análise das militâncias. Levar em conta a falibilidade do humano, a mediocridade que se escondia debaixo dos bigodudos "defensores do povo", que tomaram os 100 mil cargos no Estado.

Além de "aventureirismo", "vacilações pequeno-burguesas", "obreirismo", "sectarismo", "democracia burguesa", "fins justificando meios", "luta de classes imutável" e outros caracteres leninistas temos de utilizar conceitos como narcisismo, voluntarismo, onipotência, paranoia, burrice, nas análises mentais dos "militantes imaginários".

Baudrillard profetizou há 20 anos: "O comunismo hoje desintegrado se tornou viral, capaz de contaminar o mundo inteiro, não através da ideologia nem do seu modelo de funcionamento, mas através do seu modelo de desfuncionamento e da desestruturação brutal" (vide o novo eixo do mal da A. Latina).

Sem programa e incompetentes, os neobolcheviques só sabem avacalhar as instituições democráticas, com alguns picaretas sábios deitando "teoria" (Zizek e outros). Somos vítimas de um desequilíbrio psíquico. Muito mais que "de esquerda" ou "ex-heróis guerrilheiros", há muito psicopata e paranoico simplório. 
Esta crise não é só política, é psiquiátrica.

Por Arnaldo Jabor - para O Estado de S. Paulo
07 de janeiro de 2014 | 7h 32 

http://blogdoescritorruycmara.blogspot.com.br/2014/01/o-perigo-vermelho.html

quarta-feira, julho 27, 2011

TERROR, UM OBJETIVO CELESTE

Este artigo foi escrito e publicado no Jornal Diário do Nordeste em 17.09.2001, portanto, há quase 11 anos.  


O terrorismo é um empreendimento caro, que exige patrocínio de pessoas, instituições ou do Estado para levar adiante sua causa e o seu objetivo. Sua ação criminosa e anárquica atinge a ordem e a paz, e sua vítima é sempre a sociedade. 

A lógica do terror é ter um inimigo disposto a retaliações que ampliem a crise e conseqüentemente a sua importância. A psicologia de aliciamento do terrorista baseia-se na crença de o sujeito-moral passar a pertencer a um grupo solidário, de ideal revolucionário, utópico ou metafísico.

O pior terrorismo é o carismático, ou o chamado apocalíptico e de libertação. Esse tipo de terror não está interessado no que a seu respeito pensamos nós, pois se caracteriza pelo total desprezo à vida individual e à vida coletiva. Por que isso?

Porque em sendo a fé (em Deus, Alá, Messias e outros) a sua ancoragem última e sua lógica falibilista, o fanático encontra aí a justificativa para levar no corpo, na alma e nos sentidos, o caos estremo. Isso explica porque o terrorismo político-ideológico, historicamente  em sua maioria inspirado em Marx, logo se converte em terrorismo dogmático. 

As premissas celestes, todas maniqueístas, e as delícias do paraíso, são fundamentos extremamente sedutores que foram retirados dos versos de algum profeta para dar sentido ao que não faz sentido algum. Ora, como em todo livro sagrado pode-se achar verdades para tudo que se procura, não é estranho que os grupos radicais encontrem nalguma escritura dita sagrada a justificativa para o terror, já que o terror tem sempre uma justificativa para a sua causa, uma causa que em última instância se configura patológica.

Quando o terrorismo não tinha pleno acesso às tecnologias de matar, a atividade era uma plataforma de expressão máxima da opressão social e não tinha como alvo principal a eliminação de inocentes. 

Hoje o terrorismo é letal e está disposto a trocar vidas por notoriedade. A invenção da ação suicida é um fator supremamente amedrontador e desse modo o terror consegue recursos de doadores privados fazendo extorsão. Alguns grupos fanáticos, não suportando mais esperar o dia do juízo final, precipitam-se para o fim abrindo a caixa de Pandora num lugar estratégico que possibilite a destruição massiva.

Com a derrocada da Cortina de Ferro no leste europeu, muitos cientistas inativos passaram a prestar valiosos serviços a vários grupos terroristas no Oriente e no Ocidente. Atualmente a maior arma em favor do terrorismo é a mídia universal. Sem mídia o terrorismo se tornaria quase impotente. Por que isso?

Como a sua significação é simbólica, tanto pelo mal que infunde, quanto pelo dano real da ação, a recente ameaça de uso de armas químicas, significa mais poder de barganha do que o próprio uso do acervo mortífero. Lembremo-nos aqui das disputas pelo domínio nuclear!

Se observarmos a história do terror, perceberemos que os firmes objetivos do terrorismo nunca foram plenamente alcançados. Os palestinos, mais antigos no negócio de matar, apesar da conquista da faixa de Gaza, continuam a disputar espaços com os árabes, seus irmãos de origem. 

O PKK, dos curdos sediados em Atenas, abandonaram o marxismo e se converteram num tipo de islamismo deformado quando deixaram de receber patrocínio dos russos e do Irã. 

O ETA, especialista em atentados de qualidade política, já há muito perdeu o apoio europeu para criar o país Basco na Espanha. 

O GNA, na Argélia, apesar das vidas que eliminou, não criou o estado islâmico de libertação argelina. 

O Sendero Luminoso, no Peru, que anda de mãos dadas com os chefões da droga, nunca conseguiu impor suas premissas xenófobas. 

O Tupac Amaru, mortalmente atingido por Fujimori no episódio da embaixada do Japão em Lima, nunca conseguiu estabelecer um Estado marxista no Peru. 

O LTDE, dos tigres-hindus, inspirados no marxismo-trotskista-leninista-maoista, que massacrou milhares de budistas e mulçumanos, transformou-se numa campanha clássica de faxina étnica. Cem mil indivíduos foram mortos e ainda não há uma nação Tammel no Oriente. 

Isso prova que o terrorismo como estratégia é sumamente ineficiente no que tange ao objetivo último. Só funciona como mensagem para assustar e extorquir. Como práxis objetiva não há êxito duradouro no terror. O que consegue é despertar ódio e repúdio instantâneo contra suas atrocidades.

Todavia, por detrás de toda ação terrorista há sempre três interesses conflitantes e antagônicos entre si (um político, outro patológico e outro econômico), e juntos confluem para o oportunismo direto dos detentores de poder e do capital beligerante, que se sustenta no tripé: tecnologia de ponta, capital volátil e poder militar. 

Mas como o ideal terrorista deriva muito mais da malignidade humana, que é congênita, nada o exterminará deste mundo velho, tão velho quanto a sombra do Eterno, por isso o terror suicida cobiça a glória, e se esta for póstuma, significa o coroamento do seu celeste objetivo.
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Ruy Câmara, romancista, dramaturgo e sociólogo.

Artigo de 17.09.2001 para o Jornal Diário do Nordeste.