quarta-feira, julho 27, 2011

TERROR, UM OBJETIVO CELESTE

Este artigo foi escrito e publicado no Jornal Diário do Nordeste em 17.09.2001, portanto, há quase 11 anos.  


O terrorismo é um empreendimento caro, que exige patrocínio de pessoas, instituições ou do Estado para levar adiante sua causa e o seu objetivo. Sua ação criminosa e anárquica atinge a ordem e a paz, e sua vítima é sempre a sociedade. 

A lógica do terror é ter um inimigo disposto a retaliações que ampliem a crise e conseqüentemente a sua importância. A psicologia de aliciamento do terrorista baseia-se na crença de o sujeito-moral passar a pertencer a um grupo solidário, de ideal revolucionário, utópico ou metafísico.

O pior terrorismo é o carismático, ou o chamado apocalíptico e de libertação. Esse tipo de terror não está interessado no que a seu respeito pensamos nós, pois se caracteriza pelo total desprezo à vida individual e à vida coletiva. Por que isso?

Porque em sendo a fé (em Deus, Alá, Messias e outros) a sua ancoragem última e sua lógica falibilista, o fanático encontra aí a justificativa para levar no corpo, na alma e nos sentidos, o caos estremo. Isso explica porque o terrorismo político-ideológico, historicamente  em sua maioria inspirado em Marx, logo se converte em terrorismo dogmático. 

As premissas celestes, todas maniqueístas, e as delícias do paraíso, são fundamentos extremamente sedutores que foram retirados dos versos de algum profeta para dar sentido ao que não faz sentido algum. Ora, como em todo livro sagrado pode-se achar verdades para tudo que se procura, não é estranho que os grupos radicais encontrem nalguma escritura dita sagrada a justificativa para o terror, já que o terror tem sempre uma justificativa para a sua causa, uma causa que em última instância se configura patológica.

Quando o terrorismo não tinha pleno acesso às tecnologias de matar, a atividade era uma plataforma de expressão máxima da opressão social e não tinha como alvo principal a eliminação de inocentes. 

Hoje o terrorismo é letal e está disposto a trocar vidas por notoriedade. A invenção da ação suicida é um fator supremamente amedrontador e desse modo o terror consegue recursos de doadores privados fazendo extorsão. Alguns grupos fanáticos, não suportando mais esperar o dia do juízo final, precipitam-se para o fim abrindo a caixa de Pandora num lugar estratégico que possibilite a destruição massiva.

Com a derrocada da Cortina de Ferro no leste europeu, muitos cientistas inativos passaram a prestar valiosos serviços a vários grupos terroristas no Oriente e no Ocidente. Atualmente a maior arma em favor do terrorismo é a mídia universal. Sem mídia o terrorismo se tornaria quase impotente. Por que isso?

Como a sua significação é simbólica, tanto pelo mal que infunde, quanto pelo dano real da ação, a recente ameaça de uso de armas químicas, significa mais poder de barganha do que o próprio uso do acervo mortífero. Lembremo-nos aqui das disputas pelo domínio nuclear!

Se observarmos a história do terror, perceberemos que os firmes objetivos do terrorismo nunca foram plenamente alcançados. Os palestinos, mais antigos no negócio de matar, apesar da conquista da faixa de Gaza, continuam a disputar espaços com os árabes, seus irmãos de origem. 

O PKK, dos curdos sediados em Atenas, abandonaram o marxismo e se converteram num tipo de islamismo deformado quando deixaram de receber patrocínio dos russos e do Irã. 

O ETA, especialista em atentados de qualidade política, já há muito perdeu o apoio europeu para criar o país Basco na Espanha. 

O GNA, na Argélia, apesar das vidas que eliminou, não criou o estado islâmico de libertação argelina. 

O Sendero Luminoso, no Peru, que anda de mãos dadas com os chefões da droga, nunca conseguiu impor suas premissas xenófobas. 

O Tupac Amaru, mortalmente atingido por Fujimori no episódio da embaixada do Japão em Lima, nunca conseguiu estabelecer um Estado marxista no Peru. 

O LTDE, dos tigres-hindus, inspirados no marxismo-trotskista-leninista-maoista, que massacrou milhares de budistas e mulçumanos, transformou-se numa campanha clássica de faxina étnica. Cem mil indivíduos foram mortos e ainda não há uma nação Tammel no Oriente. 

Isso prova que o terrorismo como estratégia é sumamente ineficiente no que tange ao objetivo último. Só funciona como mensagem para assustar e extorquir. Como práxis objetiva não há êxito duradouro no terror. O que consegue é despertar ódio e repúdio instantâneo contra suas atrocidades.

Todavia, por detrás de toda ação terrorista há sempre três interesses conflitantes e antagônicos entre si (um político, outro patológico e outro econômico), e juntos confluem para o oportunismo direto dos detentores de poder e do capital beligerante, que se sustenta no tripé: tecnologia de ponta, capital volátil e poder militar. 

Mas como o ideal terrorista deriva muito mais da malignidade humana, que é congênita, nada o exterminará deste mundo velho, tão velho quanto a sombra do Eterno, por isso o terror suicida cobiça a glória, e se esta for póstuma, significa o coroamento do seu celeste objetivo.
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Ruy Câmara, romancista, dramaturgo e sociólogo.

Artigo de 17.09.2001 para o Jornal Diário do Nordeste.