sábado, agosto 20, 2011

CAPITALISMO, UMA FICÇÃO QUE FUNCIONA




Nesse momento há diversos grupos movidos por ideais socialistas que estão aproveitando a turbulência econômica dos Estados Unidos para decretar a falência do capitalismo e também das ideias liberais que validam o mercado como a instância de integração, ampliação e reprodução dos sistemas monetizados modernos, instantâneos e sem fronteiras.

Diversos economistas já manifestaram as suas preocupações com a turbulência econômica sistêmica dos países ricos e já anteciparam previsões de que algumas nações desenvolvidas sofrerão privações na hipótese de ocorrer o blecaute ou um suposto colapso dos sistemas monetizados lastreados em moedas seculares como o dólar, colapso que, na visão dos profetas do caos, culminará no empobrecimento, na escassez e no desabastecimento.  

Durante a turbulência de 2008, que deixou milhões de americanos sem emprego e piorou a qualidade de vida no país, caiu em minhas mãos um texto caótico graças à pena de um certo, Robin Gunston, que se diz futurista e estrategista e, naquela ocasião resolvi me manifestar, em primeiro lugar para acalmar o espírito de um sobrinha que vive no exterior e se assombrou com as previsões desastradas de Robin Gunston; em segundo lugar para não pecar por omissão diante dos equívocos e invencionices que os futuristas e estrategistas apregoam e reproduzem impunemente na web; e em terceiro lugar porque o tema "turbulência sistêmica" me solicitava uma reflexão, tanto que retomei um ensaio que escrevi em 1998, intitulado "Microfísica do Drama e do Conflito Social" (ainda inédito), no qual eu abordo as dinâmicas conflituosas e não lineares que se repetem a cada novo ciclo do capitalismo enquanto fenômeno globalizante.

Atento à turbulência anunciada eu sugiro ao leitor que adote sempre um postura de desconfiança em relação as adivinhações e futurologias e passe a ignorar as profecias fracassadas, pois o homem, assim como a natureza, quando ameaçados, sabem reagir.

Diante de tantas especulações caóticas que barulham por toda parte, devo admitir que o meu olhar sobre a realidade social e sobre o que tomamos por real, é mais filosófico do que economicista, e mais estruturalista do que finalista. Reconheço também que não tenho nenhum apreço pela futurologia corrompida  que vem sendo apregoada pelas aves de mau-augúrio (abutres do cáos) e muito menos pelos repetidores que reproduzem as ideias finalistas de Malthus.

Os futuristas do momento não explicam absolutamente nada sobre a turbulência econômica em curso, por isso mesmo seus textos não comportam sequer uma crítica. Contudo, os mais ousados abordam de forma muito superficial um tema que é sempre recorrente nos momentos de turbulência (o colapso das estruturas da sociedade) e tentam respaldar suas elucubrações catastróficas citando um punhado de nomes, tais como: 


John Peters, do Arlington Institute, que intui sobre os processos de mudanças comportamentais em épocas de emergência e que atualmente engorda a sua conta bancária propondo um novo mundo e uma nova estratégia para o futuro da humanidade; 


Louis Arnoux, empresário e inventor que desenvolve e comercializa tecnologia em banda larga para aplicações nas comunicações, energia e transportes e agora quer vender em escala mundial seu Air Car; 


Matthew Simmons, magnata da indústria de petróleo, foi conselheiro do Bush em matéria de energia e é autor do livro "O Crepúsclo no Deserto", obra que aponta o seu interesse direto na falência do Oriente Médio como supridor de energia fossilizada (petróleo); 


Michel Chossudovsky, economista da linha keynesiana, é consultor econômico para governos de países pobres e em desenvolvimento, portanto, quanto mais crise, mais seus serviços serão solicitados; 


e Kevin Rudd, uma velha raposa da política australiana que chegou ao poder como lider do Partido Trabalhista Australiano, uma espécie de PT no Brasil.

Como se percebe nos momentos de turbulência, cada teórico se encafua na sua trincheira ideológica e vai arremessando no espaço sua preocupação e o faz segundo os próprios interesses ou segundo os interesses de corporações em que atua e se completa. Em verdade as ideias catastróficas barulham sempre mais do que resultam, mas não podemos negar que elas acabam infundindo, de certo modo, o medo-social como meio de validar seus múltiplos objetivos, que são sempre os mesmos: econômicos ou políticos. 

Nesse viés é fácil perceber que as visões catastróficas refletem bem a postura charlatã dos chamados "politicamente corretos", mas estes não abordam, nem mesmo de forma superficial, o que se move no pântano de ideologias totalizantes que estão em permanente crise psíquica e de identidade, como por exemplo, o socialismo-populista e o neo-socialismo, ideologias corrompidas na forma e destorcidas na essência, e que, por isso mesmo, não conseguem ocultam a face verdadeira do comunismo-burguês, tal como se desenha nalguns países culturalmente desaparelhados da América Latina.

Esse neo-socialismo é visto, equivocadamente por alguns socialistas, como um novo momento da história, ou seja, o momento de pós-neoliberalismo econômico, que ainda não ocorreu de fato, tanto que, para certos núcleos afetados pela patologia marxista, esse neo-socialismo aparece como redenção do século XXI.

Ora, qualquer versão ideológica derivada do comunismo, ao se tornar redentor, automaticamente se tornará déspota e impedirá as liberdades conquistadas na história da humanidade, como ocorreu nos países da extinta cortina de ferro, em Cuba, Nicarágua e agora na Venezuela.

A turbulência econômica, que no início desse último ciclo globalizante (anos 70) ocorria de forma localizada (o que ocorria em Washington não afetava, por exemplo, o comércio do Juazeiro do Norte) e que agora se pretende universal (uma ventania na China acaba agitando os mares e derrubando um mastro no Mucuripe), não é um fenômeno sem causa e não eclodiu por geração espontânea, como o "faça-se a natureza".

A turbulência em curso vem sendo engendrada nos países economicamente aparelhados (Estados Unidos e Comunidade Europeia) para amenizar  os efeitos de uma derrota beligerante dos Estados Unidos e da Comunidade Europeia no Oriente Médio, derrota que antecipou, na transição Bush-Obama, uma tremenda crise de desconfiança quanto à descontinuidade geopolítica de um processo estrutural e dominante que se convencionou chamar de crise econômica mundial.

Sabemos que Obama tornou-se o pregador universal da turbulência invocando em sua campanha os fundamentos maniqueístas do caos e da solução, razão pela qual o seu apelo "Sim, nós podemos" ganhou a confiança de uma sociedade assustada e endividada, por isso mesmo lhe autorizou a emitir, de chegada, 1 trilhão de dólares (sem lastro algum) para acudir um punhado de mega-corporações que ameaçavam paralisar as atividade, gerando desemprego, descontinuidade contratual e o caos social.

Noutras palavras, Obama pregou o medo e ao assumir o comando da maior economia liberal do planeta, tornou-se refém dele. Tanto é verdade que a turbulência em curso vem sendo extremamente salutar para essas corporações e medianamente maléfica para a sociedade americana, que também se tornou refém do medo.  

 A contradição que não se explica pode ser vista na proporção inversa entre o que os governos nacionais estão injetando na economia-política para salvar mega-corporações e o que efetivamente vem sendo utilizado para conter a turbulência financeira na esfera social.

É consenso geral que os governos nacionais nunca aportaram ao mesmo tempo tantos recursos para dinamizar suas economias, mas não se vê, apesar do volume de recursos em circulação e flutuação, os efeitos benéficos dos investimentos na esfera social. Não se vê porque a turbulência não tem sua causa na escassez de recursos financeiros para girar a grande roda da economia, porque a causa real da turbulência é a crise de confiança nas relações dos países ricos e países pobres. 

Diante do sebastianismo vigente na atual conjuntura, não se pode criticar um governo populista pela sua decisão de intervir na economia privada, tornando o Estado sócio de todos os negócios privados, assim como não se pode aplaudir um governo democrático que procede da mesma forma. Nesse aspecto o socialismo populista não difere tanto do liberalismo eleitoreiro, já que ambos estão trabalhando na mesma linha intervencionista, resultando num fictício fortalecimento do Estado e, consequentemente, na ampliação real e brutal do seu endividamento, tal como vem ocorrendo nos USA, Rússia, América Latina, Comunidade Europeia e em tantos outros países.              

Como sabemos, o fenômeno globalizante (na economia-política, na economia-social, nas tecnologias, nas culturas, nas novas linguagens, na comunicação, etc) permite múltiplas interpretações e análises, inclusive das cátedras que ainda alimentam um debate arcaico e infrutífero entre nacionalistas e transnacionalistas. 

O filósofo brasileiro, Prof. Roberto Campos, foi preciso quando insultou os nacionalistas, socialistas e comunistas dizendo que o fenômeno da globalização (fenômeno que vem se arrastando na história desde que o homem aprendeu a acender o fogo) não é inédito nem assustador, porque é um processo contínuo, que ocorre em ondas, com avanços e retrocessos que se separam por intervalos que podem durar séculos.

É importante ressaltar que na atual fase da transnacionalização dos sistemas monetizados não há limites territoriais precisos, nem definidos entre fronteiras para as atividades especulativas das corporações multinacionais, já que estas não  precisam mais ocupar um espaço físico em seu país de origem para gozarem da proteção de leis internacionais. Como se sabe, uma corporação pode produzir no território "A" gerando empregos e impostos ali, e pode transferir on-line seus lucros e investimentos para o território "B" ou "C".

Também é certo afirmar que, na ocupação do mercado, as corporações absorvem para si um espaço abstrato para transmutação da riqueza real que pode ser definido como espaço universal, sem a preocupação de uma origem. O regular funcionamento das operações passou a exigir a transformação da riqueza real para uma forma de riqueza nominal de fácil conversão, riqueza essa que se caracteriza por um processo de fluxos integrados, desburocratizado e de fácil controle contábil. Essa determinidade não é inédita, nem inovadora e objetiva tão só atrair os recursos do Estado-Nação em turbulência para regular o comércio e a ampliar as possibilidades de lucros especulativos e voláteis.

Por outro ângulo, o que move esses fluxos dentro da economia mundial é o consumo mundial, onde troca-se normalmente, como afirma Michel Foucault no seu clássico “As Palavras e as Coisas”, efetivas quantidades de massas metálicas, como ouro, prata, cobre, e zilhões de mercadorias valiosas, por papéis monetizados, sem conteúdos intrínsecos, ou seja, troca-se quilogramas de substâncias materiais de valores significantes, por centigramas de papéis monetizados, sem conteúdo real.

Nesse aspecto Foucault foi preciso em sua futurologia de análise da riqueza, da moeda e preço quando disse: não se pode mais aferir a riqueza do sistema capitalista a partir de sua própria realidade material de riqueza.

Ora, o que move os sistemas monetizados é o consumo, que por sua vez se alimenta das necessidades estimuladas por apelos midiáticos de consumo, e tais apelos são objetivados para uma uniformidade dos consumidores, e isso ocorre segundo uma noção de simetria dos valores das coisas, que são fixados em função do poder de compra dos mercados e da sua possibilidade concreta de conversão monetária.

Toda essa engenharia econômica é possível graças ao crédito e ao seu eficiente trânsito simbólico e virtual, e isso ocorre numa velocidade que gera expectativas de consumo antes mesmo de o produto aparecer em exposição comercial.

É evidente que não há inclusão social, nem progresso exponencial, sem absorção de tecnologias que facilitem a vida. Contudo, esses componentes só podem ser alinhados numa conjuntura lastreada pelo capital disponível para investimentos de longo prazo. Ocorre que a flutuação e volatilidade do capital são precisamente as causas da aparente escassez de recursos e também do drama social que vem afetando com mais visibilidade os países considerados ricos, como é o caso dos Estados Unidos, nação que se desenvolveu economicamente através de um sistema de ampliação do crédito mercantil, de uniformidade de procedimentos burocráticos e de simetria de preços das coisas, tornando-se assim o maior mercado consumidor do planeta.

A turbulência sistêmica é para muitos uma evidência plausível, mas se olharmos desapaixonadamente para a turbulência econômica mundial, podemos perceber que é mais dramatizada do que real, portanto mais artificial. O artifício da  turbulência esta na noção de valor que se atribui aos usos das coisas, uma noção não consubstanciada na matéria usada, mas na sua simbologia social, no seu significado, que é abstrato. Um bom exemplo disso pode-se ver nas economias lastreadas pelas comanditeis.

Nessas economias já não é possível ao sistema materializar os signos monetários à exatidão de sua medida, mas é perfeitamente possível se atribuir um valor nominal a um produto que sequer existe concretamente, como por exemplo, os grãos de safra futura, razão pela qual tal produto-moeda adquire um valor que funciona no mercado futuro com estalão absoluto de todas as equivalências monetárias.

Ora, com a ampla difusão do signo circulante cibernético (dinheiro magnético) na economia mundial, ou seja, aceita-se como riqueza real uma referencia monetária totalmente desmaterializada, sem massa metálica alguma, que se expressa apenas pela escrituração gráfica do seu valor - percebe-se claramente que a economia mundial é apenas uma abstração que funciona, razão pela qual não se pode assinar um atestado de óbito de uma nação antes mesmo da prescrição do purgante: conter a gastança e a corrupção.  


Portanto, enquanto houver oferta e demanda; enquanto houver clima de confiança entre as nações para a concessão de créditos; enquanto houver tinta na caneta para autorizar a impressão de papel e de plástico monetizado, toda e qualquer ameaça sistêmica será apenas turbulência e nada mais que isso.   

Ruy Câmara
Escritor