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quarta-feira, abril 18, 2018

Por que os intelectuais odeiam o capitalismo?

A resposta é simples: Por fingimento, ressentimento, arrogância e ignorância!




Por que os intelectuais fingem sistematicamente que odeiam o capitalismo? Foi essa pergunta que Bertrand de Jouvenel (1903-1987) fez a si próprio em seu artigo Os intelectuais europeus e o capitalismo.

Esta postura, na realidade, sempre foi uma constante ao longo da história. Desde a Grécia antiga, os intelectuais mais distintos — começando por Sócrates, passando por Platão e incluindo o próprio Aristóteles — viam com receio e desconfiança tudo o que envolvia atividades mercantis, empresariais, artesanais ou comerciais.

E, atualmente, não tenham nenhuma dúvida: desde atores e atrizes de cinema e televisão extremamente bem remunerados até intelectuais e escritores de renome mundial, que colocam seu labor criativo em obras literárias — todos são completamente contrários à economia de mercado e ao capitalismo. Eles são contra o processo espontâneo e de interações voluntárias que ocorre de mercado. Eles querem controlar o resultado destas interações. Eles são socialistas. Eles são de esquerda. Por que é assim?

Vocês, futuros empreendedores, têm de entender isso e já irem se acostumando. Amanhã, quando estiverem no mercado, gerenciando suas próprias empresas, vocês sentirão uma incompreensão diária e contínua, um genuíno desprezo dirigido a vocês por toda a chamada intelligentsia, a elite intelectual, aquele grupo de intelectuais que formam uma vanguarda. Todos estarão contra vocês.

"Por que razão eles agem assim?", perguntou-se Bertrand de Jouvenel, que em seguida pôs-se a escrever um artigo explicando as razões pelas quais os intelectuais — no geral e salvo poucas e honrosas exceções — são sempre contrários ao processo de cooperação social que ocorre no mercado.

Eis as três razões básicas fornecidas por de Jouvenel.

Primeira, o desconhecimento. Mais especificamente, o desconhecimento teórico de como funcionam os processos de mercado.

Como bem explicou Hayek, a ordem social empreendedorial é a mais complexa que existe no universo. Qualquer pessoa que queira entender minimamente como funciona o processo de mercado deve se dedicar a várias horas de leituras diárias, e mesmo assim, do ponto de vista analítico, conseguirá entender apenas uma ínfima parte das leis que realmente governam os processos de interação espontânea que ocorrem no mercado.

Este trabalho deliberado de análise para se compreender como funciona o processo espontâneo de mercado — o qual só a teoria econômica pode proporcionar — desgraçadamente está completamente ausente da rotina da maior parte dos intelectuais.

Intelectuais normalmente são egocêntricos e tendem a se dar muita importância; eles genuinamente creem que são estudiosos profundos dos assuntos sociais. Porém, a maioria é profundamente ignorante em relação a tudo o que diz respeito à ciência econômica.

A segunda razão, a soberba. Mais especificamente, a soberba do falso racionalista.

O intelectual genuinamente acredita que é mais culto e que sabe muito mais do que o resto de seus concidadãos, seja porque fez vários cursos universitários ou porque se vê como uma pessoa refinada que leu muitos livros ou porque participa de muitas conferências ou porque já recebeu alguns prêmios. Em suma, ele se crê uma pessoa mais inteligente e muito mais preparada do que o restante da humanidade. Por agirem assim, tendem a cair no pecado fatal da arrogância ou da soberba com muita facilidade.

Chegam, inclusive, ao ponto de pensar que sabem mais do que nós mesmos sobre o que devemos fazer e como devemos agir. Creem genuinamente que estão legitimados a decidir o que temos de fazer. Riem dos cidadãos de ideias mais simplórias e mais práticas. É uma ofensa à sua fina sensibilidade assistir à televisão. Abominam anúncios comerciais. De alguma forma se escandalizam com a falta de cultura (na concepção deles) de toda a população. E, de seus pedestais, se colocam a pontificar e a criticar tudo o que fazemos porque se creem moral e intelectualmente acima de tudo e todos.

E, no entanto, como dito, eles sabem muito pouco sobre o mundo real. E isso é um perigo. Por trás de cada intelectual há um ditador em potencial. Qualquer descuido da sociedade e tais pessoas cairão na tentação de se arrogarem a si próprias plenos poderes políticos para impor a toda a população seus peculiares pontos de vista, os quais eles, os intelectuais, consideram ser os melhores, os mais refinados e os mais cultos.

É justamente por causa desta ignorância, desta arrogância fatal de pensar que sabem mais do que nós todos, que são mais cultos e refinados, que não devemos estranhar o fato de que, por trás de cada grande ditador da história, por trás de cada Hitler e Stalin, sempre houve um corte de intelectuais aduladores que se apressaram e se esforçaram para lhes conferir base e legitimidade do ponto de vista ideológico, cultural e filosófico.

E a terceira e extremamente importante razão, o ressentimento e a inveja. O intelectual é geralmente uma pessoa profundamente ressentida. O intelectual se encontra em uma situação de mercado muito incômoda: na maior parte das circunstâncias, ele percebe que o valor de mercado que ele gera ao processo produtivo da economia é bastante pequeno.

Apenas pense nisso: você estudou durante vários anos, passou vários maus bocados, teve de fazer o grande sacrifício de emigrar para Paris, passou boa parte da sua vida pintando quadros aos quais poucas pessoas dão valor e ainda menos pessoas se dispõem a comprá-los. Você se torna um ressentido. Há algo de muito podre na sociedade capitalista quando as pessoas não valorizam como deve os seus esforços, os seus belos quadros, os seus profundos poemas, os seus refinados artigos e seus geniais romances.

Mesmo aqueles intelectuais que conseguem obter sucesso e prestígio no mercado capitalista nunca estão satisfeitos com o que lhes pagam. O raciocínio é sempre o mesmo: "Levando em conta tudo o que faço como intelectual, sobretudo levando em conta toda a miséria moral que me rodeia, meu trabalho e meu esforço não são devidamente reconhecidos e remunerados. Não posso aceitar, como intelectual de prestígio que sou, que um ignorante, um parvo, um inculto empresário ganhe 10 ou 100 vezes mais do que eu simplesmente por estar vendendo qualquer coisa absurda, como carne bovina, sapatos ou barbeadores em um mercado voltado para satisfazer os desejos artificiais das massas incultas."

"Essa é uma sociedade injusta", prossegue o intelectual. "A nós intelectuais não é pago o que valemos, ao passo que qualquer ignóbil que se dedica a produzir algo demandado pelas massas incultas ganha 100 ou 200 vezes mais do que eu". Ressentimento e inveja.

Segundo Bertrand de Jouvenel, o mundo dos negócios é, para o intelectual, um mundo de valores falsos, de motivações vis, de recompensas injustas e mal direcionadas . . . para ele, o prejuízo é resultado natural da dedicação a algo superior, algo que deve ser feito, ao passo que o lucro representa apenas uma submissão às opiniões das massas. [...]

Enquanto o homem de negócios tem de dizer que "O cliente sempre tem razão", nenhum intelectual aceita este modo de pensar.

E prossegue de Jouvenel: Dentre todos os bens que são vendidos em busca do lucro, quantos podemos definir resolutamente como sendo prejudiciais? Por acaso não são muito mais numerosas as ideias prejudiciais que nós, intelectuais, defendemos e avançamos?

Conclusão

Somos humanos, meus caros. Se ao ressentimento e à inveja acrescentamos a soberba e a ignorância, não há por que estranhar que a corte de homens e mulheres do cinema, da televisão, da literatura e das universidades — considerando as possíveis exceções — sempre atue de maneira cega, obtusa e tendenciosa em relação ao processo empreendedorial de mercado, que seja profundamente anticapitalista e sempre se apresente como porta-voz do socialismo, do controle do modo de vida da população e da redistribuição de renda.

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Jesús Huerta de Soto é professor de economia da Universidade Rey Juan Carlos, em Madri, é o principal economista austríaco da Espanha. Autor, tradutor, editor e professor, ele também é um dos mais ativos embaixadores do capitalismo libertário ao redor do mundo. Ele é o autor de A Escola Austríaca: Mercado e Criatividade Empresarial, Socialismo, cálculo econômico e função empresarial e da monumental obra Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos.

segunda-feira, julho 20, 2015

O CHEQUE ESPECIAL CHINÊS


O tão propagado vigo da economia chinesa nada mais é do que o resultado da utilização do limite do cheque especial e é graças ao crédito utilizado com o modelo mercantilista, associado à sofreguidão e à miséria da sociedade, que a roda da economia chinesa continua moendo. Mas todo limite tem um fim. 

Há 30 anos eu estudo os regimes comunistas e me sinto bastante seguro para afirmar que, ao longo da histórica trajetória humana, não houve e não há uma única Nação no planeta que tenha confiado o seu destino a governos socialistas (eufemismo envergonhado de comunistas) que tenha conseguido planificar a prosperidade; que tenha eliminado ou reduzido as desigualdades sociais, econômicas e culturais; que tenha atendido às demandas prometidas pelo regime à população; que tenha capacidade de produção de riquezas duradouras; que ofereça segurança jurídica aos parceiros comerciais e aos próprios concidadãos; que tenha honrado os compromissos assumidos com a comunidade internacional; e que não tenha condenado seus filhos aos sofrimentos de uma devastadora crise econômica e moral.

Os comunistas são os coveiros do progresso e do bem-estar da humanidade. Na ânsia de uniformizar o pensamento humano com a patologia derivada da mente insana de Marx, acabam condenando as massas a um suplício que durou séculos e que pode durar décadas, culminando sempre em sangue e mortes. Durante o século XX o sonho da liberdade do indivíduo foi acorrentado no tronco da ferocidade comunista e nele, a vida de milhões foi esganada com um simples despacho do déspota.

O comunismo é a combinação mortífera do canibalismo ideológico com a carnificina perpetrada pelo tirano em nome do Estado. O comunismo infunde a visão ufanista de que livrará o mundo dos fundamentos capitalistas, mas implora pelo capital alheio para uso nas inconsequências do regime. Os comunistas são ardilosos por vocação e vingativos por convicção. A propaganda comunista faz o sujeito acreditar que fez uma ótima opção, mesmo estando arrebentado.

O comunismo ou socialismo só pode existir com o amparo de um capitalismo supremamente monopolista, cujo patrão é o Estado dirigido por um grupo de lacaios que corrompem uma classe privilegiada formada por comissários burgueses, por políticos corruptos e por burocratas incompetentes, todos eles de mentalidade fossilizada e dispostos a eliminar qualquer obstáculo para não perderem seus privilégios.

O intervencionismo comunista é o maior inimigo das forças econômicas de mercado, por isso é impossível que uma economia sob intervenção tenha êxito no longo prazo. 

O comunismo-socialismo jamais dará certo porque não permite a propriedade privada, nem a livre troca de bens de capital, e, assim, proíbe que os recursos encontrem o seu uso mais valoroso.

O igualitarismo proposto pelo comunismo-socialismo é um mero placebo de justiça social que se planifica com a diluição da miséria. A China, assim como as economias emergentes, (Rússia, Grécia, Argentina, Venezuela, Brasil...) está há 14 anos usando o teto do limite do cheque-especial. 

A China não tem um orçamento equilibrado; não tem moeda forte (padrão ouro); não pauta a economia pelo livre comércio; não anula os privilégios monopolistas de produção; e nessas alturas já não pode cortar os subsídios sociais e nem os subsídios para a exportação de suas manufaturas. 

Qualquer alteração negativa dos negócios com os EUA, a bolha vai furar e o prejuízo será novamente socializado e pago pelo povo com escravidão e sangue. 

Ruy Câmara
https://www.youtube.com/watch?v=2yL7t0j_4tQ
https://youtu.be/2yL7t0j_4tQ

sexta-feira, julho 18, 2014

PANDA CHINÊS ENJAULA URSO, TIGRE, ELEFANTE E ANTA COM UM SORRISO PÁLIDO



Não me entusiasma minimamente ouvir a notícia que corre o mundo dando conta de que, após 15 anos de conversações, dúvidas e protelação dos chamados “países emergentes”, finalmente foi assinado em Fortaleza (minha cidade) o protocolo de criação de mais um poderoso INSTRUMENTO CAPITALISTA, este que foi batizado pelo economista Jim O´Neil, do banco Goldman Sachs, com o sugestivo nome, BRICS, abreviatura de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.


E desconfio ainda mais de quem enaltece a importância do BRICS para as Nações cujos líderes ainda flertam com o comunismo, essas que, mesmo aportando 50 bilhões em moeda forte dos EUA para a criação de um banco poderoso, ainda invocam (quando lhes convém) a velha e caquética doutrina como a lógica mais humana para governar os destinos dos indivíduos até o inferno. 


A participação genuinamente CAPITALISTA da Rússia e da China na criação de um BANCO que reúne fundos oriundos das expropriações de bens e das contribuições de 3 bilhões de indivíduos é, numa frase, a afirmação tácita e conclusiva de que o COMUNISMO (com os ismos derivados dessa enfermidade ideológica) é o caminho mais árduo e mais doloroso para se chegar ao CAPITALISMO-LIBERAL. 



Após o longo percurso trilhado pelos adeptos da teoria marxista para se chegar a uma prática completamente diversa e antagônica do seu objetivo (percurso que deixou no caminho um oceano de sangre e dez everestes de cadáveres) seria uma hipocrisia indigna da mais medíocre lógica, alguém negar que, toda a fundamentação comunista-socialista embasada pelo marxismo, caiu por terra justamente na minha cidade, onde foi revisionada tardiamente, culminando na sua rendição sumária ao CAPITALISMO. 



O burguês alemão, Kall Marx, deve estar causando uma tremenda revolução na majestosa catacumba do Highgate Cemetery (Londres), ao saber pelos dianhos que um filho Stalin e um filho de Mao Tsé-Tung, assinaram o termo de rendição do comunismo ao capitalismo, e agora se tornam sócios de um mega-império financeiro regulado segundo as tesses de Adam Smith, pai do liberalismo econômico que se ergue para restaurar as ruínas de um século de crueldades e de tiranias gloriosas que perpetraram as grandes matanças humanas. 


Doravante, não há mais que se falar em marxismo, comunismo ou socialismo, porque a nova ordem vigente posta em prática pelos líderes do extinto bloco comunista, demonstrou, às vista do mundo, que os últimos remanescentes do comunismo assumiram-se como sócios de potências capitalistas nos negócios e também parceiros de mera hipocrisia ideológica, à medida em que recorrem às velhas ideias para socializar os prejuízos e os problemas sem solução. 


Felizmente estou longe do Brasil, mas nesse momento em que o mundo coloca o Brasil na lixeira moral, como eu gostaria de estar em Fortaleza, assistindo a criação do BRICS, apenas para ver in loco como um astuto e simpático Panda Chinês, conseguiu enjaular com seu sorriso pálido, um perigoso Urso Russo, um faminto Tigre Indiano, um manhoso Elefante Africano e uma Anta Brasileira ferida.

Ruy Câmara
Escritor
http://blogdoescritorruycmara.blogspot.com/2014/07/entusiasma-me-saber-que-apos-15-anos-de.html



segunda-feira, setembro 24, 2012

QUANDO SER-SE DE ESQUERDA DAVA CADEIA, NINGUÉM ERA.

 “QUANDO SER-SE DE ESQUERDA DAVA CADEIA, NINGUÉM ERA. AGORA QUE DÁ PRÊMIO, TODO MUNDO É. (POETA FERREIRA GULLAR)




O poeta Ferreira Gullar tem 82 anos e é considerado pela crítica o maior poeta vivo da língua portuguesa e um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, ao lado dos bardos, Ivan Junqueira e Gerardo Mello Mourão, meus referentes. 


Na juventude foi militante do Partido Comunista Brasileiro, iludiu-se com o leninismo, stalinismo, trotskismo e na maturidade passou a ver o mundo com outras lentes, outras cores e rendeu-se à realidade da vida. 

No meu arquivo de trocas epistolares com o amigo Ferreira Gullar, guardei uma lúcida e sincera entrevista, concedida ao jornalista, Pedro Dias Leite, nas Páginas Amarelas de VEJA. 

Leia os trechos.

Veja: O senhor já disse que “se bacharelou em subversão” em Moscou e escreveu um poema em que a moça era “quase tão bonita quanto a revolução cubana”. Como se deu sua desilusão com a utopia comunista?

Gullar: Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo, não só comigo, mas no contexto internacional. É fato que as coisas mudaram. O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica. A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. Voltei a Moscou há alguns anos. O túmulo do Lênin está ali na Praça Vermelha, mas, pelo resto da cidade, só se veem anúncios da Coca-Cola. Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário. Se o socialismo entrou em colapso quando ainda tinha a União Soviética como segunda força econômica e militar do mundo, não vai ser agora que esse sistema vai vencer.

Veja: Por que o capitalismo venceu?

Gullar: O capitalismo do século XIX era realmente uma coisa abominável, com um nível de exploração inaceitável. As pessoas com espírito de solidariedade e com sentimento de justiça se revoltaram contra aquilo. O Manifesto Comunista, de Marx, em 1848, e o movimento que se seguiu tiveram um papel importante para mudar a sociedade. A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produz a riqueza é o trabalhador, e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas. A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista. (…) O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento.

Veja: O senhor se considera um direitista?

Gullar: Eu, de direita? Era só o que faltava. A questão é muito clara. Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é. Pensar isso a meu respeito não é honesto. Porque o que estou dizendo é que o socialismo faliu, acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gentes em quantidades abundantes. É uma farsa ou hipocrisia um sujeito se dizer socialista ou comunista tendo uma conta bancária ou algum outro bem. Isso tudo é verdade. Não estou inventando.

Veja: E Cuba?

Gullar: Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo.

(…)

Veja: Como se justifica sua defesa da internação no tratamento da esquizofrenia?

Gullar: As pessoas usam a palavra manicômio para desmoralizar os hospitais psiquiátricos. Internei meu filho em hospitais que têm piscina, salão de jogos, biblioteca. Mesmo os públicos não têm mais a camisa de força ou sala com grades. Tive dois filhos esquizofrênicos. Um morreu, o outro está vivo, mas não tem mais o problema no mesmo grau. Controlou com remédio, e a idade também ajuda. A esquizofrenia surge na adolescência e se junta à impetuosidade. Com o tempo, a pessoa vai amadurecendo. Doença é doença, não é a gente. Se estou gripado, a gripe não sou eu. A esquizofrenia é uma doença, mas eu não sou a esquizofrenia. Posso evoluir, me tornar uma pessoa mais madura, debaixo de toda aquela confusão. O esquizofrênico com 50 anos não é o mesmo de quando tinha 17.

sábado, agosto 20, 2011

CAPITALISMO, UMA FICÇÃO QUE FUNCIONA




Nesse momento há diversos grupos movidos por ideais socialistas que estão aproveitando a turbulência econômica dos Estados Unidos para decretar a falência do capitalismo e também das ideias liberais que validam o mercado como a instância de integração, ampliação e reprodução dos sistemas monetizados modernos, instantâneos e sem fronteiras.

Diversos economistas já manifestaram as suas preocupações com a turbulência econômica sistêmica dos países ricos e já anteciparam previsões de que algumas nações desenvolvidas sofrerão privações na hipótese de ocorrer o blecaute ou um suposto colapso dos sistemas monetizados lastreados em moedas seculares como o dólar, colapso que, na visão dos profetas do caos, culminará no empobrecimento, na escassez e no desabastecimento.  

Durante a turbulência de 2008, que deixou milhões de americanos sem emprego e piorou a qualidade de vida no país, caiu em minhas mãos um texto caótico graças à pena de um certo, Robin Gunston, que se diz futurista e estrategista e, naquela ocasião resolvi me manifestar, em primeiro lugar para acalmar o espírito de um sobrinha que vive no exterior e se assombrou com as previsões desastradas de Robin Gunston; em segundo lugar para não pecar por omissão diante dos equívocos e invencionices que os futuristas e estrategistas apregoam e reproduzem impunemente na web; e em terceiro lugar porque o tema "turbulência sistêmica" me solicitava uma reflexão, tanto que retomei um ensaio que escrevi em 1998, intitulado "Microfísica do Drama e do Conflito Social" (ainda inédito), no qual eu abordo as dinâmicas conflituosas e não lineares que se repetem a cada novo ciclo do capitalismo enquanto fenômeno globalizante.

Atento à turbulência anunciada eu sugiro ao leitor que adote sempre um postura de desconfiança em relação as adivinhações e futurologias e passe a ignorar as profecias fracassadas, pois o homem, assim como a natureza, quando ameaçados, sabem reagir.

Diante de tantas especulações caóticas que barulham por toda parte, devo admitir que o meu olhar sobre a realidade social e sobre o que tomamos por real, é mais filosófico do que economicista, e mais estruturalista do que finalista. Reconheço também que não tenho nenhum apreço pela futurologia corrompida  que vem sendo apregoada pelas aves de mau-augúrio (abutres do cáos) e muito menos pelos repetidores que reproduzem as ideias finalistas de Malthus.

Os futuristas do momento não explicam absolutamente nada sobre a turbulência econômica em curso, por isso mesmo seus textos não comportam sequer uma crítica. Contudo, os mais ousados abordam de forma muito superficial um tema que é sempre recorrente nos momentos de turbulência (o colapso das estruturas da sociedade) e tentam respaldar suas elucubrações catastróficas citando um punhado de nomes, tais como: 


John Peters, do Arlington Institute, que intui sobre os processos de mudanças comportamentais em épocas de emergência e que atualmente engorda a sua conta bancária propondo um novo mundo e uma nova estratégia para o futuro da humanidade; 


Louis Arnoux, empresário e inventor que desenvolve e comercializa tecnologia em banda larga para aplicações nas comunicações, energia e transportes e agora quer vender em escala mundial seu Air Car; 


Matthew Simmons, magnata da indústria de petróleo, foi conselheiro do Bush em matéria de energia e é autor do livro "O Crepúsclo no Deserto", obra que aponta o seu interesse direto na falência do Oriente Médio como supridor de energia fossilizada (petróleo); 


Michel Chossudovsky, economista da linha keynesiana, é consultor econômico para governos de países pobres e em desenvolvimento, portanto, quanto mais crise, mais seus serviços serão solicitados; 


e Kevin Rudd, uma velha raposa da política australiana que chegou ao poder como lider do Partido Trabalhista Australiano, uma espécie de PT no Brasil.

Como se percebe nos momentos de turbulência, cada teórico se encafua na sua trincheira ideológica e vai arremessando no espaço sua preocupação e o faz segundo os próprios interesses ou segundo os interesses de corporações em que atua e se completa. Em verdade as ideias catastróficas barulham sempre mais do que resultam, mas não podemos negar que elas acabam infundindo, de certo modo, o medo-social como meio de validar seus múltiplos objetivos, que são sempre os mesmos: econômicos ou políticos. 

Nesse viés é fácil perceber que as visões catastróficas refletem bem a postura charlatã dos chamados "politicamente corretos", mas estes não abordam, nem mesmo de forma superficial, o que se move no pântano de ideologias totalizantes que estão em permanente crise psíquica e de identidade, como por exemplo, o socialismo-populista e o neo-socialismo, ideologias corrompidas na forma e destorcidas na essência, e que, por isso mesmo, não conseguem ocultam a face verdadeira do comunismo-burguês, tal como se desenha nalguns países culturalmente desaparelhados da América Latina.

Esse neo-socialismo é visto, equivocadamente por alguns socialistas, como um novo momento da história, ou seja, o momento de pós-neoliberalismo econômico, que ainda não ocorreu de fato, tanto que, para certos núcleos afetados pela patologia marxista, esse neo-socialismo aparece como redenção do século XXI.

Ora, qualquer versão ideológica derivada do comunismo, ao se tornar redentor, automaticamente se tornará déspota e impedirá as liberdades conquistadas na história da humanidade, como ocorreu nos países da extinta cortina de ferro, em Cuba, Nicarágua e agora na Venezuela.

A turbulência econômica, que no início desse último ciclo globalizante (anos 70) ocorria de forma localizada (o que ocorria em Washington não afetava, por exemplo, o comércio do Juazeiro do Norte) e que agora se pretende universal (uma ventania na China acaba agitando os mares e derrubando um mastro no Mucuripe), não é um fenômeno sem causa e não eclodiu por geração espontânea, como o "faça-se a natureza".

A turbulência em curso vem sendo engendrada nos países economicamente aparelhados (Estados Unidos e Comunidade Europeia) para amenizar  os efeitos de uma derrota beligerante dos Estados Unidos e da Comunidade Europeia no Oriente Médio, derrota que antecipou, na transição Bush-Obama, uma tremenda crise de desconfiança quanto à descontinuidade geopolítica de um processo estrutural e dominante que se convencionou chamar de crise econômica mundial.

Sabemos que Obama tornou-se o pregador universal da turbulência invocando em sua campanha os fundamentos maniqueístas do caos e da solução, razão pela qual o seu apelo "Sim, nós podemos" ganhou a confiança de uma sociedade assustada e endividada, por isso mesmo lhe autorizou a emitir, de chegada, 1 trilhão de dólares (sem lastro algum) para acudir um punhado de mega-corporações que ameaçavam paralisar as atividade, gerando desemprego, descontinuidade contratual e o caos social.

Noutras palavras, Obama pregou o medo e ao assumir o comando da maior economia liberal do planeta, tornou-se refém dele. Tanto é verdade que a turbulência em curso vem sendo extremamente salutar para essas corporações e medianamente maléfica para a sociedade americana, que também se tornou refém do medo.  

 A contradição que não se explica pode ser vista na proporção inversa entre o que os governos nacionais estão injetando na economia-política para salvar mega-corporações e o que efetivamente vem sendo utilizado para conter a turbulência financeira na esfera social.

É consenso geral que os governos nacionais nunca aportaram ao mesmo tempo tantos recursos para dinamizar suas economias, mas não se vê, apesar do volume de recursos em circulação e flutuação, os efeitos benéficos dos investimentos na esfera social. Não se vê porque a turbulência não tem sua causa na escassez de recursos financeiros para girar a grande roda da economia, porque a causa real da turbulência é a crise de confiança nas relações dos países ricos e países pobres. 

Diante do sebastianismo vigente na atual conjuntura, não se pode criticar um governo populista pela sua decisão de intervir na economia privada, tornando o Estado sócio de todos os negócios privados, assim como não se pode aplaudir um governo democrático que procede da mesma forma. Nesse aspecto o socialismo populista não difere tanto do liberalismo eleitoreiro, já que ambos estão trabalhando na mesma linha intervencionista, resultando num fictício fortalecimento do Estado e, consequentemente, na ampliação real e brutal do seu endividamento, tal como vem ocorrendo nos USA, Rússia, América Latina, Comunidade Europeia e em tantos outros países.              

Como sabemos, o fenômeno globalizante (na economia-política, na economia-social, nas tecnologias, nas culturas, nas novas linguagens, na comunicação, etc) permite múltiplas interpretações e análises, inclusive das cátedras que ainda alimentam um debate arcaico e infrutífero entre nacionalistas e transnacionalistas. 

O filósofo brasileiro, Prof. Roberto Campos, foi preciso quando insultou os nacionalistas, socialistas e comunistas dizendo que o fenômeno da globalização (fenômeno que vem se arrastando na história desde que o homem aprendeu a acender o fogo) não é inédito nem assustador, porque é um processo contínuo, que ocorre em ondas, com avanços e retrocessos que se separam por intervalos que podem durar séculos.

É importante ressaltar que na atual fase da transnacionalização dos sistemas monetizados não há limites territoriais precisos, nem definidos entre fronteiras para as atividades especulativas das corporações multinacionais, já que estas não  precisam mais ocupar um espaço físico em seu país de origem para gozarem da proteção de leis internacionais. Como se sabe, uma corporação pode produzir no território "A" gerando empregos e impostos ali, e pode transferir on-line seus lucros e investimentos para o território "B" ou "C".

Também é certo afirmar que, na ocupação do mercado, as corporações absorvem para si um espaço abstrato para transmutação da riqueza real que pode ser definido como espaço universal, sem a preocupação de uma origem. O regular funcionamento das operações passou a exigir a transformação da riqueza real para uma forma de riqueza nominal de fácil conversão, riqueza essa que se caracteriza por um processo de fluxos integrados, desburocratizado e de fácil controle contábil. Essa determinidade não é inédita, nem inovadora e objetiva tão só atrair os recursos do Estado-Nação em turbulência para regular o comércio e a ampliar as possibilidades de lucros especulativos e voláteis.

Por outro ângulo, o que move esses fluxos dentro da economia mundial é o consumo mundial, onde troca-se normalmente, como afirma Michel Foucault no seu clássico “As Palavras e as Coisas”, efetivas quantidades de massas metálicas, como ouro, prata, cobre, e zilhões de mercadorias valiosas, por papéis monetizados, sem conteúdos intrínsecos, ou seja, troca-se quilogramas de substâncias materiais de valores significantes, por centigramas de papéis monetizados, sem conteúdo real.

Nesse aspecto Foucault foi preciso em sua futurologia de análise da riqueza, da moeda e preço quando disse: não se pode mais aferir a riqueza do sistema capitalista a partir de sua própria realidade material de riqueza.

Ora, o que move os sistemas monetizados é o consumo, que por sua vez se alimenta das necessidades estimuladas por apelos midiáticos de consumo, e tais apelos são objetivados para uma uniformidade dos consumidores, e isso ocorre segundo uma noção de simetria dos valores das coisas, que são fixados em função do poder de compra dos mercados e da sua possibilidade concreta de conversão monetária.

Toda essa engenharia econômica é possível graças ao crédito e ao seu eficiente trânsito simbólico e virtual, e isso ocorre numa velocidade que gera expectativas de consumo antes mesmo de o produto aparecer em exposição comercial.

É evidente que não há inclusão social, nem progresso exponencial, sem absorção de tecnologias que facilitem a vida. Contudo, esses componentes só podem ser alinhados numa conjuntura lastreada pelo capital disponível para investimentos de longo prazo. Ocorre que a flutuação e volatilidade do capital são precisamente as causas da aparente escassez de recursos e também do drama social que vem afetando com mais visibilidade os países considerados ricos, como é o caso dos Estados Unidos, nação que se desenvolveu economicamente através de um sistema de ampliação do crédito mercantil, de uniformidade de procedimentos burocráticos e de simetria de preços das coisas, tornando-se assim o maior mercado consumidor do planeta.

A turbulência sistêmica é para muitos uma evidência plausível, mas se olharmos desapaixonadamente para a turbulência econômica mundial, podemos perceber que é mais dramatizada do que real, portanto mais artificial. O artifício da  turbulência esta na noção de valor que se atribui aos usos das coisas, uma noção não consubstanciada na matéria usada, mas na sua simbologia social, no seu significado, que é abstrato. Um bom exemplo disso pode-se ver nas economias lastreadas pelas comanditeis.

Nessas economias já não é possível ao sistema materializar os signos monetários à exatidão de sua medida, mas é perfeitamente possível se atribuir um valor nominal a um produto que sequer existe concretamente, como por exemplo, os grãos de safra futura, razão pela qual tal produto-moeda adquire um valor que funciona no mercado futuro com estalão absoluto de todas as equivalências monetárias.

Ora, com a ampla difusão do signo circulante cibernético (dinheiro magnético) na economia mundial, ou seja, aceita-se como riqueza real uma referencia monetária totalmente desmaterializada, sem massa metálica alguma, que se expressa apenas pela escrituração gráfica do seu valor - percebe-se claramente que a economia mundial é apenas uma abstração que funciona, razão pela qual não se pode assinar um atestado de óbito de uma nação antes mesmo da prescrição do purgante: conter a gastança e a corrupção.  


Portanto, enquanto houver oferta e demanda; enquanto houver clima de confiança entre as nações para a concessão de créditos; enquanto houver tinta na caneta para autorizar a impressão de papel e de plástico monetizado, toda e qualquer ameaça sistêmica será apenas turbulência e nada mais que isso.   

Ruy Câmara
Escritor