segunda-feira, janeiro 02, 2012

O Irreverente Quintino Cunha


O escritor, poeta, rábula, jornalista e anarquista, José Quintino da Cunha (parente do meu amigo, Roberto Cunha, e da minha nora, Andréa Cunha) nasceu em Itapajé – Ceará, antiga vila de São Francisco de Uruburetama, no dia 24 de julho de 1875, e faleceu em Fortaleza no dia 1º de junho de 1943.



Aos 11 anos de idade o menino já colaborava com jornais de Baturité. Na adolescência foi convidado e aceitou passar uns dias de férias na casa de um dos seus colegas do Colégio Militar. Viajou até a cidade e em lá chegando não encontrou os colegas, que haviam ido para uma fazenda noutra cidade. As tias idosas do colega o convidaram a ficar ali até a volta do sobrinho. Quintino aceitou de pronto o convite, desfez a mala e hospedou-se! À noite não lhe ofereceram jantar; na manhã seguinte não lhe deram o café da manhã e ao meio dia não almoçou. À noite, já bastante faminto, Quintino tirou a barriga da miséria comendo frutas no quintal. No outro dia, antes do sol nascer, resolveu ir embora, deixando um bilhete sobre a mesa:

"Adeus casinha da fome. 
Nunca mais me verás tu. 
Criei ferrugem nos dentes 
E teia de aranha no cu."

Rapaz erudito e de temperamento inquieto, viajou para a Amazônia, onde atuou como rábula durante 5 anos. Ganhou algum dinheiro e partiu para a Europa, onde publicou o seu primeiro livro de poemas "Pelo Solimões", de 1907. Retornando ao Ceará, Bacharelou-se na Faculdade de Direito do Ceará em 1909, passando a exercer a profissão de advogado criminalista. 

Foi deputado estadual de 1913- 1914, mas logo desistiu da carreira de político e encabeçou a campanha do Bode Ioiô para Vereador de Fortaleza. Quando abriram as urnas o animal (BODE) foi um dos candidatos mais votados. 

Certa vez, no tribunal do júri, levou até o promotor à comoção ao dizer que o acusado era arrimo de família e cuidava sozinho de sua mãezinha cega de mais de oitenta anos:

– Não olhem para o crime deste infeliz! Orem pela sua pobre mãe, velhinha, doente, alquebrada pelos anos e pela tristeza, implorando a misericórdia dos homens, genuflexa diante da justiça, se desfazendo em lágrimas, pedindo liberdade para o seu filho querido!

O réu foi inocentado. Na saída do tribunal, um dos presentes, sensibilizado, aproximou-se do causídico:
– Doutor Quintino, quero fazer uma visita à mãe daquele infeliz, pois quero ajudá-la!
– Ora! Eu sei lá se esse filho de uma égua algum dia teve mãe!

Quintinho fazia uma viagem de trem para Cariús (CE), mas no caminho havia uma parada em Iguatu (CE). Era o dia da inauguração do novo prédio do Fórum (ou Foro, como queiram). Alguns colegas, ao encontrarem Quintino na estação, convidaram-no para participar da solenidade.

Mal-humorado, Quintino perguntou:

– Quem é o juiz?
– É o Doutor Fulano.
– E o promotor?
– Sicrano.
– E o advogado?
– Beltrano.

Desdenhoso, o matreiro advogado torceu o nariz e resmungou:
– Pois isso não é um Foro! É um desaforo!

Quintino Cunha ganhou fama por seu estilo irreverente, carismático e hoje é lembrado pelas anedotas que pregava e contava. Tido como o precursor dos nossos humoristas literários, era excêntrico sem ser snobe, feio e cativante. Eternamente esquecido, sempre resgatado, figura ao lado dos grandes mestres do improviso literário ferino, como Bernard Shaw, Quevedo e Swift, sendo considerado pelo crítico Agripino Grieco "o maior humorista brasileiro de todos os tempos". 

Já célebre advogado, a fama de Quintino Cunha se espalhava pelo Nordeste. Certo dia ocorreu um crime no interior da Paraíba, onde pai e filho assassinaram um adversário político e para defendê-los, convidaram o famoso causídico. Quintino fez a defesa com muita propriedade conseguindo a absolvição dos réus. A cidade fez festa de comemoração pela semana, hospedando Dr. Quintino no melhor hotel. Eis que surge no hotel um humilde casal dos sítios afastados. O marido dirigiu-se ao advogado expondo-lhe o desejo de um desquite, em face dos desentendimentos do casal. Dr Quintino então pergunta-lhe se este possui algum bem, alguma propriedade. 

- Não doutor, eu nada "pissuo" e trabalho alugado, em sítios alheios. 
Vira-se para a esposa e faz-lhe idêntica pergunta, vindo a resposta. 
- Doutor, pra que a verdade lhe seja dita eu ainda tenho menos que ele. 
Dr. Quintino respondeu-lhes em versos: 

"A questão é muito tola!
Aqui mesmo, eu os desquito.
Fique ele com sua rola
E ela com o seu priquito." 

Quintino Cunha cousou-se diversas vezes e viveu em constante penúria financeira. Seu livro de versos mais famoso é, Pelo Solimões, publicado em Paris (1907) durante uma viagem do poeta à Europa à convite de amigos. 

Um dos casos mais conhecidos e apreciados pelos frequentadores da Praça do Ferreira nos anos 20 diz respeito a um assassinato perpetrado por um deficiente físico muito pobre, órfão de pai e mãe, que perambulava nas ruas do Centro de Fortaleza à procura de biscates. Tímido e calado, o moço parecia não se importar com as piadas e apelidos que recebia. Todos os dias um sujeito o chamava: "Chico Mei Cu!", "Chico Mei Cu!" e assim foram anos de chacotas. 

Certo dia, num ato de cólera, Francisco armou-se e desferiu umas punhaladas certeiras, ceifando a vida de um de seus mais ferrenhos mangadores. Foi preso no ato e imediatamente trancafiado na cadeia pública, onde permaneceu aguardando o julgamento. 

Atendendo às súplicas dos que queriam a libertação de Francisco, apareceu diante do Júri o consagrado advogado, Quintino Cunha. Após ouvir os argumento vigorosos da promotoria, que pedia a condenação e pena máxima para o réu, o Juiz convocou a defesa. Quintino Cunha levantou-se e entrou em cena: 

- Meritíssimo Juiz, Ilustríssimo Doutor Promotor, Respeitabilíssimos Jurados. Em defesa de Francisco eu tenho a dizer que... (Pausa). Sentou-se começou a escrever. 

Após alguns segundos de pausa, ele repete: 

- Meritíssimo Juiz, Ilustríssimo Doutor Promotor, Respeitabilíssimos Jurados. Em defesa de Francisco eu tenho a declarar que... (Nova pausa). Sentou-se e continuou escrevendo. 

Após os novos segundos de pausa, ele torna: - Meritíssimo Juiz, Ilustríssimo Doutor Promotor, Respeitabilíssimos Jurados. Em defesa de Francisco eu poderia falar que... 

De imediato o Juiz esbraveja: 

- Mas quanta demora! O Senhor irá ou não dar início à defesa do reú? 

Ao que Quintino replicou: 

Repare só, Meritíssimo: Não faz sequer um minuto que eu só me dirijo a vós de forma respeitosa, e já provoquei vossa inquietação. Agora imagine Vossa Excelência, o que deve ter passado pelas idéias do pobre Francisco, após todos esses anos de achincalhamento e mangoça pública. 

Seguindo, Quintino Cunha deu continuidade ao discurso de defesa. E com toda a eloquência e poder de convencimento que lhes eram peculiares, conseguiu a absorvição do réu. Saiu do tribunal carregado nos braços por seus amigos, rumo ao botequim mais próximo.

Germanófilo anti-Hitler; esquerdista anti-Stalin; homem do povo e orador nato, Quintino Cunha era culto, boêmio e frequentador assíduo da Praça do Ferreira nos anos 20 e 30, à época dos cafés Art Nouveau, Riche, Glória e do Comércio. Contemporâneo de Leonardo Mota, Gustavo Barroso e Paula Nei, foi homenageado por Euclides da Cunha, Guerra Junqueiro e Émile Faguet e por outros bastiões da Academia Francesa. 

É dele a singela expressão: "O cearense é como o passarinho: tem que arribar para fazer o ninho.” "No Ceará, o sujeito nasce na Fé, cresce na Esperança e morre na Caridade”.

Há quem diga que momentos antes de morrer Quintino ditou uma frase para seu próprio epitáfio: "O Padre Eterno, segundo conta a Sagrada Escritura, tirou o Mundo do nada... e eu nada tirei do mundo!”.


                                Quintino Cunha
                               Rui Barbosa Morto


                           Cerebração complexa e o primeiro
                           dos grandes homens nacionais em tudo.
                           Continente a viver do conteúdo
                           de si mesmo, na Pátria e no estrangeiro.


                          De virtudes, um másculo pioneiro;
                          da nossa Liberdade, eterno escudo;
                          deram-lhe tudo, menos sobretudo,
                          a direção do povo brasileiro!


                          Vivo, não fora a tanto necessário...
                          Morto, é tão grande, é tão extraordinário,
                          que encontra, em cada Estrela, um cemitério!


                          De onde passo a ilagir, um tanto aflito:
                          ou o Rui foi menos do que se tem dito,
                          ou este nosso Brasil é um caso sério...


Nota: soneto feito de improviso, numa mesa do bar Rotisserie, em Fortaleza, a pedido de Leonardo Mota, quando da morte de Rui Barbosa.
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Fontes:
Livro “Anedotas do Quintino”, de Plautus Cunha, com colaboração de José Rodrigues dos Santos.

PELO SOLIMÕES, Quintino Cunha, 2a. edição revista, Manaus: Editora Valer,1999. ISBN 85-86512-15-X

Comunhão da serra (c/ João Quintino)
Encontro das águas (c/ Mamede Cirino)
Mulher do norte (c/ João Quintino)
Vais? (c/ Manuel Cândido)