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sexta-feira, abril 13, 2018

GERARDO MELLO MOURÃO, Poeta Oracular e Absoluto

Por Ruy Câmara

Gerardo Mello Mourão, o poeta oracular e absoluto que tinha orgulho de dizer-se jagunço cearense há quatrocentos anos, foi amassado no barro das Ipueiras em 8 de janeiro de 1917, e em 09 de março de 2007 virou a última página de sua história lutando pela vida com a mesma serenidade com que enfrentou tantas mortes em plena vida. 

Sua partida entristeceu o mundo intelectual e deixou-nos um vazio que precisa ser preenchido para que possamos dotar de sentido o que aparentemente não faz sentido algum, como por exemplo, a morte, essa companheira inconfiável que, num simples bater de pálpebras, vira o mundo ao avesso e desmantela tudo o que tomamos por real, insuprimível ou mesmo eterno. 

Mas quem sabe morrer de vida longeva, morre silente, no silêncio da pena que corre suave sobre o papel para inspirar os sábios e os deuses. Gerardo morreu silente, mas para a camarilha que se amotinava com o fito de excluí-lo dos cânones políticos e literários, ele já havia morrido em vida, vítima das conspirações, das prisões, da inveja e do silêncio hostil dos núcleos acadêmicos e políticos do Brasil.

Gerardo não teve lugar na Academia Brasileira de Letras, nem nas Academias de Letras do Ceará; não cobrou do Estado os danos morais e materiais que o Estado lhe causou; não requereu aposentadorias pelo tempo que serviu à Pátria Brasileira e nunca pesou contra ele a acusação de dedo-duro, o que nos leva a crer que nosso poeta, pela sua vida mesma, pela sua grandeza moral e intelectual, encarnou a metáfora do “Albatroz, imensa ave dos mares” que Baudelaire sublimou num dos mais belos poemas de língua francesa: “o poeta se compara ao príncipe da altura, que enfrenta os vendavais e as setas no ar, e exilado no chão, em meio à turba obscura, suas asas de gigante o impedem de andar.” 

Pelo legado que nos deixa em obras literárias de valor insuprimível, Gerardo é, sem dúvida, muito mais do que dele já dissemos ou ainda estamos por dizer ao longo do século em curso. E quando invocamos um mito com tal dimensão, logo aí vem ele, pisando suave, com as mãos para trás, olhos agudos, brilhantes e atentos a tudo, vestido num terno impecável, de gravata-borboleta, esboçando um sorriso matreiro antes de contar alguma peripécia com sua voz ritmada e vibrante, própria dos cantadores nordestinos. 

Contrário senso, o tradutor de Parmênides de Eléia (530-460 a.C), de Rainer Maria Rilke (1875-1926) e do líder militar, poeta e calígrafo chinês, Máo Zédōng, conhecido como Mao Tsé-tung (1893-1976), cumpriu com dignidade a sua função de humanista politicamente incorreto, de poeta excluído das cortes das letras e ignorou solene a patrulha de literatos que o considerava um “marginal” das letras, como o foram Homero e Dante, Camões e Hölderlin, Baudelaire, Lautréamont e Rimbaud, que são os grandes reitores do saber e do espírito. 

Em março de 2006, como que antevendo o destino se cumprir, fui com o cineasta Wolney Oliveira à casa do poeta que, apesar do ombro fraturado e das dores nos ossos, nos acolheu com o entusiasmo de criança, e lá gravamos durante cinco dias consecutivos, suas confissões, peripécias e aventuras. 

Dona Lea, testemunha e guia dos passos do marido, nos mostrava com seus olhos os livros, os objetos, as artes e com o dedo apontava os labirintos da casa onde, desde o princípio já se sabia que, para o poeta a busca da musa era sempre mais sublime que o encontro. Quando fechávamos um bloco fílmico e fazíamos uma pausa, o poeta incorporava o filósofo, metia a mão no seu poço de erudição e ditava: «A ideologia representa a negação da fecundidade do pensamento e da liberdade do espírito. O sujeito que se escraviza a uma ideologia não produz idéias próprias e torna-se vítima de uma idéia fixa alheia. Às vezes, fascinado por um sonho generoso, o homem se encerra no círculo de ferro, estéril e sem saída de uma ideologia. A ideologia é a depravação maior do pensamento e da inteligência dos impostores que têm sede de poder. A ideologia é a impostura com que os tolos esterilizam seu pensamento, sua inteligência e até mesmo sua honra. O século 20 conheceu essa indigência e esta impostura com a endemia do marxismo, com o mimetismo do socialismo e com a ganância soberana do capitalismo. Essas ideologias em confronto exterminaram o que poderia brotar de humanismo nos círculos respeitáveis do pensamento dos países culturalmente aparelhados». E ao final do dia, quando vinha a fadiga, Gerardo nos brindava, ora com tragos de bom vinho, ora com uma poesia anestésica e paralisante.

Homem pio, seráfico e impregnado pela fé-feroz que santificou Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, Gerardo não escondia o seu entusiasmo pela vida de pecador, nem mesmo quando instado a falar sobre a fé e sobre o que o teria levado a renunciar a vida clerical aos 18 anos. E quantas horas de sabedoria: «Eu não persigo a fama. Eu persigo a glória e escrevo para chegar diante de Deus com minhas obras, na esperança de ser acolhido com minhas idéias». Súbito, a voz vibrante do cantador das Ipueiras foi abafada pela pronúncia em recto-tono do frater Gerardo, a nos contar que ingressara no Seminário dos Redentoristas Holandeses aos 11 anos, convencido de que, a maior felicidade a que o homem pode aspirar é ser santo. Ao ouvi-lo dizer que não tinha forças pra agüentar aquele sacrifício, aquela imolação diária e que os castigos da consciência lhe ardiam mais do que as punições por rebeldia, inferi que a gênese do pensamento rebelde e independente do poeta pode ser achada nos seus anos de noviciado, pois não é fácil um jovem renunciar as suas paixões e desejos carnais, afinal, as paixões inaugurais do ser eclodem na adolescência, e a vida monacal educa o sujeito para exterminar a sua própria vontade. 

Revivendo os tempos no Seminário, ele relembrou que aos 17 anos foi punido diante dos noviços pelo pater magister (mestre dos noviços) com a seguinte ordem: «Irmão, plante essa roseira no jardim, mas plante-a de cabeça pra baixo, com a raiz pra cima». Quando a roseira murchou, o pater magister bateu à porta da cela de Gerardo e disse: «Irmão, hoje você está incumbido de regar as plantas do jardim». Gerardo abriu a janela, viu o temporal caindo e continuou mudo. Enfurecido, o pater magister gritou: «Frater, aqui não se discute ordem, nem se questiona». Gerardo caiu de joelhos, beijou o chão e foi regar o jardim debaixo de chuva. Tempos depois, num almoço dominical o pater magister disse: «Frater, o senhor é hebdomadário esta semana, então o senhor vai pronunciar errado três palavras em latim». Ora, para quem aos 13 anos já traduzia Homero e Píndaro, Virgílio e Horácio, Ovídio e Propércio, pronunciar palavras erradas seria uma humilhação diante da comunidade. Gerardo pensou um pouco e leu um texto que todos sabiam de cor: Bíblia sacra, de libro Genesis, caput quintum, continuatur... que foi pronunciado assim: de libro Genésis, caputim quintum continuatum. Nesse ponto o velho padre reitor estava à mesa e gritou: «Frater, frater, seis anos de latim e ainda não sabe pronunciar o nome de um livro da Sagrada Escritura». Gerardo ajoelhou-se, mas não beijou o chão, pois sua natureza já lhe cobrava uma atitude. Contudo, passou sete meses travando uma luta interior (sai, não sai) imaginando que estaria fechando as portas do céu para sua alma. No dia da saída, Gerardo procurou o padre reitor e confessou-lhe o seu arrependimento. O mestre olhou-o e disse: «Meu filho, você já foi provado por Deus longamente. Há meses que você está nessa agonia interior. Então vá e siga seu destino». 

Em 1935, poucos meses antes de proferir os votos de pobreza, castidade e obediência, Gerardo desvestiu o hábito e chegou ao Rio de Janeiro numa véspera de carnaval, ouvindo os rapazes, moças e transviados cantar: «Eva querida, quero ser o teu Adão». Seguramente, pensou consigo mesmo: «Nossa Senhora, vão todos para o inferno». Mas como a carne é fraca, durante o carnaval Gerardo foi maculado por todos os pecados mortais catalogados nas bulas, católica e bizantina. «Quem quiser que os imagine», disse ele rindo. 

Aos 23 anos, Gerardo firmou o Pacto del Vitória, sagrou-se cavaleiro da Senhora Poesia e ingressou na «Santa Hermandad de la Orquídea», ao lado de Efraim Tomás Bo, Godofredo Iommi, Juan Raul Young, Abdias Nascimento e Napoleão Lopes Filho. A guilda órfica deixou rastros nas terras e nas águas marítimas e fluviais de quatro continentes, empunhando a bandeira do saber e do fazer poético. Essa aventura mundana está documentada numa bitácula preciosa em que os membros da Santa Hermandad escreveram um memorando épico-lírico dos achamentos de chãos andados ou imaginados e deram testemunho escrito numa partitura poética intitulada "Amereida", preservada num livro raro do qual se tiraram apenas algumas dezenas de exemplares. Parece certo dizer que Gerardo e seu bando de jovens idealistas, todos desertores da vida prática, já compreendiam que a imposição tirânica do altruísmo (um comportamento imposto pela autoridade), significa a anulação da liberdade do pensamento e a violação da própria condição humana, pois nega ao homem o encontro consigo próprio, e o impede de cumprir, enfim, o seu destino incerto e desconhecido no mundo.

Desde que se assumiu poeta, Gerardo ignorou olimpicamente a patrulha ideológica que elevou um bando de escrevinhadores à categoria de poetas nacionais e adotou um posicionamento de independência e rebeldia que se chocava radicalmente contra o establishment literário, político e acadêmico nacional, pois para ele, intelectual é antes de tudo uma postura crítica, solitária e coerente frente a uma circunstância; é saber tirar da escuridão o lume para que outros desvelem as máscaras do real. Sabia também que, para cumprir tal desiderato é preciso independência, coragem e tais atributos são condições do “eu” sozinho, porque um intelectual não é um grupo, portanto, não conta com o apoio do outro para enfrentar uma adversidade e, freqüentemente, não enfrentaria se a cada iniciativa tivesse que pedir o apoio do colega.

Apesar das perseguições, das torturas e dos anos de clandestinidade e de exílio na China, França, Alemanha e Chile, Gerardo era um homem doce, sem amarguras, sem frustrações, e nutria-se da velha ambição cosmogônica de viver num mundo em que ao homem é possível o culto ao belo e à felicidade de ser e de existir com alguém ao seu lado, ou seja, de desfrutar de um sentimento compartilhado e livre de ódios e rancores. 

E aqui peço vênia ao vate para repeti-lo: «O ressentimento é a pior coisa a que o homem pode guardar dentro de si. Um homem consciente não permite que o ressentimento lhe possua, porque trata-se de um sentimento nocivo, sentido pela segunda vez, pela terceira vez, pela quarta vez, portanto não é um sentimento original, pois o ressentimento é ressentir, e isso leva o homem à pura esterilidade da razão, e impede que os sentimentos mais sublimes se manifestem em seu espírito».

Senhor das línguas conhecidas e desconhecidas, das línguas antigas e esdrúxulas, Gerardo não falava explicitamente das suas influências literárias, mas não conseguia esconder a sua admiração por um rosário de poetas universais, entre os quais ele inclui o caboclo Anselmo Vieira, cantador da feira de Ipueiras, com sua rabeca rouca, sua voz gemedeira, cantando quadras e sextilhas de sete sílabas, mourões de oito pés em quadrão e galopes-à-beira-mar, em puros endecassílabos e metastasio. «Quando ouço um repentista nordestino puxando a gemedeira, ouço também, em cada verso, a batida dos pés de Homero, Virgílio e Ovídio, com seus hexâmetros e pentâmetros, com seus dáctilos, anapestos e troqueus ritmando a cantoria, pois é essa batida rítmica que dá espírito ao verso que o poeta gera com a inocência do tocador de viola e com a sabedoria intuitiva e mágica que exclui mesmo a intuição». 

Parece certo dizer que o fascínio pela santidade e a busca do êxtase poético, são os dois pólos entre os quais oscila o pêndulo da criação de Gerardo. Contudo, a língua de Gerardo é a língua de Ovídio, Virgílio, Cícero, Homero, Píndaro, Petrarca, Leopardi, Dante, Camões, Cervantes, poetas que guardam o ritmo interior dos versos em dáctilos virgilianos, hexâmetros, jônicos e trocaicos, mas a sua linguagem é a linguagem dos cantadores nordestinos que ele conheceu no pé-da-serra da Ibiapaba, e o ritmo predominante de sua poesia é o ritmo religioso do canto gregoriano que ele entoava na serenidade claustral da sua juventude. 

Trancafiado 18 vezes nos cárceres do Estado Novo, Gerardo sozinho era uma rebelião e suas obras mais demolidoras foram estruturadas ao longo de 5 anos e 10 meses em que esteve preso na Ilha Grande, Ilha das Flores e na rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro, onde escreveu em verso e em prosa, romances, contos, ensaios e biografias tematizando o problema da irresidência do ser. Entre os livros mais importantes, destacam-se: O Cabo das Tormentas (1950); O Valete de Espadas (1960); a trilogia poética Os Peãs, composta pelos livros O País dos Mourões (1963), Peripécias de Gerardo (1972) e Rastro de Apolo (1977); A Invenção do Saber (1983); a epopéia Invenção do Mar (1997); Cânon e Fuga (1999); Os Olhos do Gato (2001) e O Bêbado de Deus (2001). 

Durante as filmagens, o poeta externou a sua indignação dizendo: «Nunca fui condenado à morte como insinuam os sacripantas da história e da má fé, pois não havia pena de morte no Brasil à época, nem mesmo no caso do decreto de 1942, que me condenou à prisão perpétua. Nunca houve processo judicial legal contra mim e o processo do infame Tribunal de Segurança Nacional nunca teve sequer autos judiciais, constando apenas de um inquérito do Dops. Nunca fui condenado por nenhuma lei brasileira, nem por qualquer tribunal legalmente constituído e nunca compareci diante de um juiz para ser julgado. Nem mesmo o infame Tribunal de Segurança ousou me acusar de conspirar contra o Brasil. A acusação de espião nazista e de haver colaborado para o afundamento de navios na costa brasileira, partiu dos meus adversários na imprensa, de David Nascer, da Revista O Cruzeiro, de quem me vinguei exemplarmente obrigando-o comer uma iguaria bizarra e imunda. Tenho um imenso e olímpico desdém por uns pobres bonifrates que me consideram um poeta importante e que tenho direito a uma revisão dos “erros” do passado. Não tenho erros políticos a corrigir. Portanto, não permito que ninguém mude uma vírgula do meu passado. Minha história pessoal é um patrimônio de que muito me orgulho». 

Desde muito se sabe que os navios brasileiros foram afundados por submarinos aliados para forçar o Brasil a entrar na 2ª Guerra, trocando borracha da Amazônia e vidas de milhares de nordestinos por uma siderúrgica no Sudeste. O caso em que Gerardo foi agredido nos mais elementares direitos humanos, é único em toda a história do Ocidente, pois não se conhece outro caso em que alguém tenha sido condenado “por decreto” com aplicação retroativa. 

Não temo errar se disser que Gerardo, o anticanônico, foi e é o mais erudito dos poetas brasileiros desde o achamento desta nação em 1500, e sua história se confunde com a História do Brasil ao longo do século XX, já que viveu o século inteiro, e atuou no enredo com a convicção de que não lhe cabia fazer história, mas sofrer a História. 

Criador na mais alta acepção da palavra, Gerardo dizia que o tempo da criação é intemporal, tanto que podemos chamá-lo de poeta da "suidade" (da saudade), da coisa sua, da circunstância sua, uma vez que sua poesia, ao lado se sua prosa, formam a medula do seu espírito humanista, espírito que se fortaleceu sob o signo secular do trivium (saberes humanos) e do quatrivium (saberes exatos).

Poucas semanas antes da morte, Gerardo confidenciou-me que estava afetado pela tristeza existencial do ser (ou seria ontológica?), e que se sentia como Léon Bloy, possuído por uma angústia medular e constante, até mesmo quando recitava o credo de Santo Atanásio e confirmava a sua convicção na vida eterna. Disse-me ainda que não levaria consigo nenhuma mágoa dos seus algozes, nem mesmo da escritora Rachel de Queiroz, que ora lhe acusava de “direitista” e “esquerdista”, de “nacionalista” e “entreguista”, de “nazista” e “fascista”, de “reacionário” e “conciliador”, de modo que isso deve bastar para que sua alma seja salva da maldição secular que emana dos sarcófagos acadêmicos e políticos do Brasil.

Aprendi muito ao longo de quatorze anos de irmandade sincera com Gerardo, o inspirador de duas gerações de escritores. E quantas memórias cada um de nós, seus amigos, podemos reviver? Lembro-me bem do dia em regressamos de sua Ipueiras e fomos juntos à casa de Paes de Andrade (seu amigo e ídolo) e de lá fomos para um evento na Assembléia Legislativa do Ceará. Na tribuna, após haver falado das misérias que testemunhara durante sua viagem ao sertão do Ceará, Gerardo perguntou aos deputados se alguém ali poderia dizer para que serve um poeta num Estado pobre em Cultura, Educação e Saúde? Após um tempo de silêncio frustrante, eis que ele afia as palavras na sua língua de pedra e diz: «Neste mundo o que dura é o que foi fundado pelos poetas e não pelos especialistas, que são meros figurantes de uma tarefa ancilar. Não são protagonistas do saber nem da história. Nunca um especialista criou algo duradouro nem embasou uma nação». Ao ouvir isso, suspeitei que Gerardo utilizou o eufemismo “especialista” para não deixar os deputados que o aplaudiam de saia-justa. E prosseguiu: «A Grécia foi fundada pelo poeta, Homero, cego e gênio. O império romano foi inspirado pelo poeta Virgílio e por um escritor que se fez general, Caio Julio César. O mundo judaico foi fundado pelos poetas das profecias, Jeremias, Isaias, Ezequiel, Daniel e pelos Cantos do rei Davi. A civilização mulçumana foi fundada pelo poeta Maomé, seu senhor e soberano. A China e a Ásia Oriental foram fundadas pelo poeta Kung-Fu-Tze, que conhecemos por Confúcio. A Itália foi fundada por Dante, poeta absoluto. Churchill, animava suas tropas contra o fogo de Hitler, enviando aos soldados os versos de Shakespeare. Os soldados germânicos levavam na mochila os Cantos de Rilke e os hinos de Hölderlin. E o que seria de Portugal sem Camões e Pessoa? Da França sem Voltaire, Baudelaire, Lamartine e Hugo? E o Ceará sem seus poetas, renegados e esquecidos?» E finalizou dizendo: «Foi o Deus poético e dialético que engendrou o pensamento mítico, o tempo divino do homem, mas foi a verdade helênica que deu vigor à noção de liberdade e democracia, verdade luminosíssima que fundou o homem livre». Os aplausos não impediram o nosso poeta de dizer: «É para preencher o vazio do espírito humano que serve um poeta com sua poesia».


Ruy Câmara é romancista, dramaturgo e sociólogo, autor de, Cantos de Outono, Romance da Vida de Lautréamont, obra traduzida e publicada em mais de 60 países, primeiro finalista do Prêmio Jabuti 2004; Prêmio de Ficção da Academia Brasileira de Letras, Categoria Melhor Romance de 2004; e Prêmio de Melhor Romance Traduzido 2009, pela Asociatia Scriitorilor Bucuresti. 



Com o AI-5, Gerardo passa três meses entre o Sops, Dops, quartel da PM Caetano de Faria e do Exército em Harmonia, dividindo cela com Zuenir Ventura, Hélio Pellegrino, Ziraldo, Osvaldo Peralva e outros intelectuais perseguidos.

domingo, março 12, 2017

OCUPAÇÃO DESORDENADA E DESENFREDA DA ORLA DE FORTALEZA


Inicio esta reflexão afirmando com todas as letras que, nenhuma metrópole ou nação do mundo civilizado concebeu, embasou, desenvolveu ou promoveu a sua indústria do turismo sendo permissiva com a ocupação ilegal e desenfreada do espaço urbano público. 

Contudo, não sou contra a existência de barracas de praia na orla de Fortaleza. Sou contra, completamente contra, a ocupação fora da lei de 70% de uma extensão de 34 km de Orla Marítima Pública que está ocupada de forma desordenada, inconsequente, danosa e até irresponsável por sem-tetos, barraqueiros e grileiros.
Obviamente que é difícil debater com seriedade sobre a ocupação do espaço urbano público com quem tem interesse direto na ocupação e na exploração de atividade econômica envolvendo as áreas litorâneas da cidade.
Eu entro nesse debato com natural imparcialidade porque não tenho o mínimo interesse em ocupar ou explorar nenhuma área urbana pública. Por isso enfrento esse tema porque ele vem sendo tratado como se barraca de praia fosse a principal atividade econômica do Estado ou a fonte mais importante de atração turística da cidade de Fortaleza.

O argumento de que as barracas atraem para Fortaleza o grande turismo é falacioso e inconsistente. O Ceará, que disputava com a Bahia a liderança do turismo internacional e recebia três vezes mais voos internacionais de que Pernambuco, está agonizando por escassez de turismo, perdendo posições para Recife, Natal e até para Aracaju, que tem uma população cinco vezes menor do que Fortaleza.
Em 2016 o turismo no Estado foi superado até por Porto Seguro (BA) e por Maceió (AL), mesmo apresentando os menores valores de tarifas hoteleiras do Nordeste.

Tanto é verdade que o Ceará hoje amarga a humilhante 4ª posição no Ranking do turismo nordestino e não são os barraqueiros de praia a solução para esse fracasso, que tem outras causas e inúmeras consequências, sendo a mais visível, a omissão dos governos e a falta de iniciativas para promover e atrair turistas de qualidade.
As autoridades torraram quase R$ 300 milhões em dois aeroportos regionais que jamais receberam sequer um voo com turistas. O novo Aeroporto Pinto Martins, que seria capaz de garantir Fortaleza como sede do hub aéreo internacional da Latam, que desde 2010 anunciou que o implantaria no Nordeste, está com as obras paralisadas desde a copa de 2014.

Está longe, muito longe de serem as barracas essa megaatividade que seus donos alardeiam por aí em defesa dos próprios interesses. E quem tiver alguma dúvida do que afirmo, que procure se inteirar sobre a retribuição insignificante desse setor na arrecadação de impostos para o Município e para o Estado.   
A ocupação desordenada (problema recente) vem sendo feita impunemente por 3 categorias sociais: os sem-tetos, os grileiros oportunistas e os donos de barracas, que também agem como grileiros na medida mesma em que se apossam e privatizam as áreas públicas.
Na praia do Futuro e Vicente Pinzon já tem mais de 20 mil casebres e cortiços onde vivem mais de 80 mil favelados. A maioria se fixou nos últimos 10 anos e nenhuma providência foi tomada pelas autoridades, que fazem vistas muito grossas para a ocupação dos sem-tetos porque o Estado e Município não alocaram recursos para os programas habitacionais.

Já os donos de barracas, que se beneficiam de privilégios e favores que facilitam a ocupação desordenada com projetos de interesses pessoais, ocuparam boa parte da orla da cidade, alterando o ambiente com obras e edificações sem planejamento; ocuparam também áreas de preservação permanente, áreas que deveriam estar protegidas por leis ambientais e o resultado dessa ocupação pode ser visto nas diversas fontes poluidoras como: ligações de esgotos clandestinos, escavações para fossas e sumidouros fora dos padrões de saneamento e de tratamento dos resíduos orgânicos; pelo lixo putrefato nas calçadas e ruas, fato que obriga o contribuinte a arcar com o ônus da coleta de lixo privada.
A UFC, juntamente com o pessoal da Gerência Regional do Patrimônio da União, concluiu que as barracas não se situam em área de praia, mas na berma ou pós-praia. Ignoraram solene que uma barraca não é só a área de processamento dos alimentos e bebidas, mas todo o espaço que é ocupado por mesas, cadeiras e palhoças.  

E o que é mais grave: não existe nenhuma imposição fiscal de planejamento por parte das autoridades ou ação social por parte dos ocupantes, visando mitigar o impacto danoso gerado pela ocupação desordenada do espaço público.
Vejo alguns burocratas do governo falando em preservação do ambiente, mas até hoje não existe sequer um único corredor ecológico ao longo dos 35 km da orla de Fortaleza. O que vemos são condutas lesivas e descarada desobediência à Lei de Crimes Ambientais, e as consequências são visíveis, sendo a mais preocupante: o permissivo processo de “favelização” que vem se estendendo progressivamente e impunemente.
Além dos problemas sociais e de segurança pública, é inegável que o adensamento das áreas ocupadas por barraqueiros saturou a orla e comprometeu inclusive a qualidade das águas superficiais e subterrâneas, isso sem falar que em metade das praias de Fortaleza a água é imprópria para banho durante 4 meses por ano.
Outro ponto que merece disciplinamento diz respeito à danosa poluição visual, pelo excesso de elementos ligados à comunicação visual, como placas, cartazes, anúncios, propagandas, etc.
É verdade que a Praia do Futuro não se prestou tão bem ao desenvolvimento imobiliário, em razão do alto grau de salinidade do oceano, mas a regulamentação e o disciplinamento do espaço das barracas não impedem o desenvolvimento ordenado das atividades econômicas ali exploradas. Ao contrário, o ordenamento e a regulamentação agregarão mais valor e mais qualidade ao propósito social, cultural e econômico das diversas atividades correlatas que atuam nas áreas litorâneas ocupadas.
A União tem que se fazer presente na solução dessa problemática e é dever da Prefeitura abrir o processo licitatório para a exploração comercial e licenciamento para concessão de alvarás de funcionamento das barracas de praia da cidade.
É preciso criar um padrão de excelência mínima, delimitando o tamanho máximo da ocupação, respeitando as serventias, abrindo espaços vazios para garantir a coexistência com a fauna e flora da área, totalmente prejudicadas.
Uma vez licitadas as áreas permitidas, os exploradores do ramo de barracas de praia terão que obedecer às regras de licenciamentos sonoros; terão que respeitar os protocolos sanitários, devendo ainda aprimorar os padrões de saneamento do entorno com redes de coleta de esgotos, e sendo eles próprios responsáveis pelo destino final aos resíduos que produzem.
Não podemos ignorar que a própria função social do patrimônio público de Fortaleza está dando lugar (pela ocupação desenfreada) a uma privatização ilegal que remonta anos e ao apoderamento de supostos direitos temporais que contrariam de forma afrontosa toda a fundamentação do que é e deve continuar sendo público e não privado para gaudio de uns poucos que se presumem donos do que não possuem sequer direitos de posse.   

Ruy Câmara
Escritor e Sociólogo

http://blogdoescritorruycmara.blogspot.com.br/2017/03/ocupacao-desordenada-e-desenfreda-da.html




domingo, junho 29, 2014

METROFOR

O velho e ultrapassado METRÔ DE FORTALEZA, obra iniciada em setembro de 1987, portanto, há exatos 27 anos (ouviram bem, há 27 anos) já consumiu mais de R$ 12 bilhões do contribuinte e até hoje se arrasta com a LERDEZA DE UMA CENTOPEIA com a barriga cheia.

Nota: A tabela ao lado foi publicada há 15 anos.

Lembro-me bem do Lula, Dilma, Cid Gomes, Luizienne e outros ilusionistas, ganhando eleições no Ceará, prometendo e reprometendo que entregariam o Metrô mais moderno do mundo antes da Copa.

Imaginem, amigos e leitores, todo esse tempo (quase 3 décadas) e toda essa grana preta, para entregar à população um sistema de trens lentos e ultrapassados, com velocidade de no máximo 75 km/h, sobre uma malha férrea de 75 km, em grande parte de superfície, e eté ontem, apenas 24 km da malha sul, continuam há 2 anos em fase de testes, operando em média 4 h por dia.

O governo alega que, para o METRÔ entrar em operação comercial, ainda faltam 4 licitações, de valor de R$ 186 milhões.

Não resta dúvida de que, transformaram o velho e ultrapassado METRÔ de FORTALEZA, na cacimba mais funda que os TATUZÕES já cavaram em todo o planeta.

quinta-feira, junho 05, 2014

FORTALEZA E SUA MENTALIDADE DE REBANHO


Fortaleza parou de se modernizar há 12 anos e sofreu durante os últimos 8 (oito) anos com a desastrada e fracassada administração Luizianne Lins, do PT, esse partido que há exatos 12 anos tomou o Brasil de assalto; aparelhou as instituições nacionais com seus bandos de incompetentes e delinquentes de estimação; desmantelou as finanças públicas com populismos, desvios de verbas e demagogia; arruinou uma das empresas mais lucrativas do mundo, a Petrobras; arruinou a Eletrobras e mais, além de não haver cumprido nem 10% das promessas que garantiram 2 (duas) eleições a Lula e 1 (uma) a Dilma, esse partido de desonestos vai deixando um rombo impagável de quase R$ 3 trilhões para nós, contribuintes, por isso Dilma está em vias de ser banida do poder por vontade soberana do povo brasileiro.

Esse banimento nós vimos em 2012, quando Luizianne com seu poste sem lume foram banidos da Prefeitura, porque a sociedade optou por elegeu o jovem prefeito, Roberto Cláudio, que assumiu a gestão em janeiro de 2013, organizou o caos financeiros herdado da antecessora e rapidamente transformou a cidade num canteiro de obras importantes e muito necessárias para melhorar a caótica mobilidade urbana da cidade.

Hoje eu soube através da imprensa que as principais obras de mobilidade urbana de Fortaleza estão paralisadas novamente por decisão da justiça, ou melhor, muito mais por pirraça de um grupo político de mentalidade retrograda que vem se ocupando com a promoção do atraso.

Ora, qualquer pessoa que conhece outras metrópoles do mundo sabe que a velha e sucateada Praça Portugal perdeu a sua função mais essencial à mobilidade há exatos 20 anos. Sabe também que a obra do viaduto do Cocó é tão importante quanto necessária para desafogar o trânsito caotizado numa área vital da cidade.

Ocorre que o grupo formado por alguns inconformados e por autoridades descomprometidas com o interesse público, resolveu sabotar (sabotar é o termo suficiente para desqualificar as ações irresponsáveis dessa gente) o conjunto de obras que a Prefeitura vem empreendendo, notadamente as obras de maior visibilidade, tais como o viaduto do Cocó e a sucateada Praça Portugal.

Está claro que esse grupo de inconformados insiste em ignorar que a sociedade de Fortaleza clama por essas obras de melhorias, mas a pretexto meramente burocrático, o grupo reduz e submete uma necessidade real ao tamanho da sua mentalidade de rebanho ou vaidade meramente legalista.
 

Obviamente que as decisões tomadas pela Justiça não consideraram os prejuízos financeiros e materiais que nós, contribuintes, haveremos de suportar em consequencia das disputas politiqueiras que foram levadas aos tribunais.

O que essa gente fez e continua fazendo para prejudicar a gestão de um prefeito que está trabalhando muito e trabalhando bem, é uma estupidez sem precedentes na administração pública. Se querem fazer oposição política, que o façam (é salutar para a democracia e para a economia política), mas não na forma de sabatagem judiciante e muito menos prejudicando a sociedade em sua totalidade e causando estragos nas finanças públicas.


Ruy Câmara
Escritor

 http://blogdoescritorruycmara.blogspot.com/2014/06/fortaleza-empavada.html

sábado, julho 14, 2012

TORTURA SONORA, IMPUNIDADE E DINHEIRO PÚBLICO




Não há nenhuma autoridade no Estado do Ceará se empenhando para que a Lei do Silêncio seja respeitada ou cumprida. Pior ainda: não há nenhum órgão público fiscalizando os ABUSOS e AGRESSÕES SONORAS por toda a cidade.

Fortaleza, que se transformou numa cidade incivilizada pela criminalidade cotidiana, torna-se também um ANTRO de baderna pública, de desordem sonora e de massificação de mentiras por toda parte.

Cadê a SEMAN? Cadê o Disk Silêncio? Cadê a Ronda? Cadê a IMPRENSA? Cadê o Governador? Cadê a Prefeita? Cadê o Ministério Público? Por que motivo todos esses órgão e pessoas estão omissos, completamente omissos, diante desse MASSACRE SONORO constante?



Claro que na falta da autoridade para coibir tantos absurdos, resta ao cidadão procurar se defender dessas agressões da forma como puder. 


Mas é preciso que a parte civilizada da população se manifeste nas redes sociais para dizer a esses governos irresponsáveis que não se faz um PREFITINHO na MARRA, produzindo barulho, e muito menos com gastanças desenfreadas e atos de incivilidade. O que ou quem essas marionetes do poder pensam que são? Donos das ruas, avenidas, praças?

A POLUIÇÃO SONORA EM FORTALEZA tornou-se um PANDEMÔNIO, uma TORTURA insuportável para as pessoas de todas as idades. Nossa cidade foi tomada de assalto por centenas de CARROS DE SONS barulhando por toda parte, em todos os horários, PROPAGANDEANDO nomes de pelegos que seus CHEFESTES POLÍTICOS querem eleger PREFEITO DE FORTALEZA.

O que está ocorrendo é um ABUSO e uma AFRONTA ao bom senso e à razão do CIDADÃO-CONTRIBUINTE, que vê tudo isso passivamente, sem se manifestar e sem esboçar nenhuma reação cidadã. Tampouco se importa que o dinheiro nosso continue sendo TORRADO de forma tão GROTESCA e INCIVILIZADA.

Com os patrocínios de Cid Gomes e de Luiziane Lins – gestores do dinheiro nosso - (dois) FANTOCHES de uma política rastaquera e tupiniquim se dão ao direito de quebrar o silêncio e tranquilidade das famílias de forma ABUSIVA, COVARDE e onerosa para o Estado e Município.

O Eleitor metropolizado deveria se perguntar, antes de votar nesses patifes do barulho e da poluição visual de onde vem tanto dinheiro para tantos estardalhaços? Posso garantir, ingênuo Eleitor, que a grana preta que estão torrando não saiu do bolso de Cid Gomes nem de Luiziane! Disso podemos ter certeza.

Ruy Câmara



http://blogdoescritorruycmara.blogspot.com.br/2012/07/tortura-sonora-impunidade-dinheiro.html

terça-feira, janeiro 03, 2012

2012 COMEÇA DE MAL A PIOR NO CEARÁ

2012 começou de mal a pior para o povo do nosso Ceará e mais ainda para a população da nossa tão maltratada Fortaleza. 


Sabemos nós e bem mais os especialistas em segurança que, as portas para a criminalidade, desordem e badernas se escancaram quando uma parte da população percebe a omissão ou negligência dos aparelhos do Estado.




A previsível e anunciada onda de assaltos, arrastões e crimes de toda ordem atingiu em cheio a população nesta terça-feira. O clima nas ruas da nossa capital é de tensão, medo e de revolta diante da criminalidade e marginalidade que assola todo o Estado do Ceará. 

Os Comerciantes do centro de Fortaleza e dos diversos bairros fecharam as portas. Todos os municípios do Estado estão completamente à mercê das quadrilhas de criminosas que passaram a atuar com total liberdade e impunemente diante da complacência das polícias e bombeiros, que estão de braços cruzados, torcendo para que o caos se estabeleça e apavore ainda mais a população desarmada e trancada em suas casas. 

Hoje, o Ceará é o Estado mais perigoso e violento da Amárica Latina e quiçá, do mundo. Por conta dessa violência sem cura e sem remédio, todos os postos de saúde de Fortaleza fecharam as portas; supermercados, lojas, shoppings, repartições públicas e serviços básicos também paralisaram as atividades por conta da insegurança; os Correios; as Secretarias Municipais; o Tribunal de Justiça, o Fórum Clóvis Beviláqua e todas as escolas públicas estão de portas fechadas. Os motoristas de ônibus da capital darão início a uma paralisação; os agentes de trânsito da Autarquia Municipal de Fortaleza (AMC) sumiram das ruas com seus cassetetes de pau; e as forças do Exército Brasileiro (tão prometidas pelo governador Cid Gomes) não estão conseguindo manter a ordem por deficiência de contingente.

Mas o palácio do governo e as famílias da OLIGARQUIA sobralense continuam muito bem protegidos pela polícia particular. Esse CAOS real e entrópico é o resultado mais objetivo da crise de governabilidade, fruto da INCOMPETÊNCIA, da JUMENTICE ou mesmo da escassez de TESTOSTERONA nos bagos de um GOVERNO fraco e incapaz de perceber as inconsequências dos próprios atos.

Ruy Câmara
Escritor



segunda-feira, janeiro 02, 2012

O Irreverente Quintino Cunha


O escritor, poeta, rábula, jornalista e anarquista, José Quintino da Cunha (parente do meu amigo, Roberto Cunha, e da minha nora, Andréa Cunha) nasceu em Itapajé – Ceará, antiga vila de São Francisco de Uruburetama, no dia 24 de julho de 1875, e faleceu em Fortaleza no dia 1º de junho de 1943.



Aos 11 anos de idade o menino já colaborava com jornais de Baturité. Na adolescência foi convidado e aceitou passar uns dias de férias na casa de um dos seus colegas do Colégio Militar. Viajou até a cidade e em lá chegando não encontrou os colegas, que haviam ido para uma fazenda noutra cidade. As tias idosas do colega o convidaram a ficar ali até a volta do sobrinho. Quintino aceitou de pronto o convite, desfez a mala e hospedou-se! À noite não lhe ofereceram jantar; na manhã seguinte não lhe deram o café da manhã e ao meio dia não almoçou. À noite, já bastante faminto, Quintino tirou a barriga da miséria comendo frutas no quintal. No outro dia, antes do sol nascer, resolveu ir embora, deixando um bilhete sobre a mesa:

"Adeus casinha da fome. 
Nunca mais me verás tu. 
Criei ferrugem nos dentes 
E teia de aranha no cu."

Rapaz erudito e de temperamento inquieto, viajou para a Amazônia, onde atuou como rábula durante 5 anos. Ganhou algum dinheiro e partiu para a Europa, onde publicou o seu primeiro livro de poemas "Pelo Solimões", de 1907. Retornando ao Ceará, Bacharelou-se na Faculdade de Direito do Ceará em 1909, passando a exercer a profissão de advogado criminalista. 

Foi deputado estadual de 1913- 1914, mas logo desistiu da carreira de político e encabeçou a campanha do Bode Ioiô para Vereador de Fortaleza. Quando abriram as urnas o animal (BODE) foi um dos candidatos mais votados. 

Certa vez, no tribunal do júri, levou até o promotor à comoção ao dizer que o acusado era arrimo de família e cuidava sozinho de sua mãezinha cega de mais de oitenta anos:

– Não olhem para o crime deste infeliz! Orem pela sua pobre mãe, velhinha, doente, alquebrada pelos anos e pela tristeza, implorando a misericórdia dos homens, genuflexa diante da justiça, se desfazendo em lágrimas, pedindo liberdade para o seu filho querido!

O réu foi inocentado. Na saída do tribunal, um dos presentes, sensibilizado, aproximou-se do causídico:
– Doutor Quintino, quero fazer uma visita à mãe daquele infeliz, pois quero ajudá-la!
– Ora! Eu sei lá se esse filho de uma égua algum dia teve mãe!

Quintinho fazia uma viagem de trem para Cariús (CE), mas no caminho havia uma parada em Iguatu (CE). Era o dia da inauguração do novo prédio do Fórum (ou Foro, como queiram). Alguns colegas, ao encontrarem Quintino na estação, convidaram-no para participar da solenidade.

Mal-humorado, Quintino perguntou:

– Quem é o juiz?
– É o Doutor Fulano.
– E o promotor?
– Sicrano.
– E o advogado?
– Beltrano.

Desdenhoso, o matreiro advogado torceu o nariz e resmungou:
– Pois isso não é um Foro! É um desaforo!

Quintino Cunha ganhou fama por seu estilo irreverente, carismático e hoje é lembrado pelas anedotas que pregava e contava. Tido como o precursor dos nossos humoristas literários, era excêntrico sem ser snobe, feio e cativante. Eternamente esquecido, sempre resgatado, figura ao lado dos grandes mestres do improviso literário ferino, como Bernard Shaw, Quevedo e Swift, sendo considerado pelo crítico Agripino Grieco "o maior humorista brasileiro de todos os tempos". 

Já célebre advogado, a fama de Quintino Cunha se espalhava pelo Nordeste. Certo dia ocorreu um crime no interior da Paraíba, onde pai e filho assassinaram um adversário político e para defendê-los, convidaram o famoso causídico. Quintino fez a defesa com muita propriedade conseguindo a absolvição dos réus. A cidade fez festa de comemoração pela semana, hospedando Dr. Quintino no melhor hotel. Eis que surge no hotel um humilde casal dos sítios afastados. O marido dirigiu-se ao advogado expondo-lhe o desejo de um desquite, em face dos desentendimentos do casal. Dr Quintino então pergunta-lhe se este possui algum bem, alguma propriedade. 

- Não doutor, eu nada "pissuo" e trabalho alugado, em sítios alheios. 
Vira-se para a esposa e faz-lhe idêntica pergunta, vindo a resposta. 
- Doutor, pra que a verdade lhe seja dita eu ainda tenho menos que ele. 
Dr. Quintino respondeu-lhes em versos: 

"A questão é muito tola!
Aqui mesmo, eu os desquito.
Fique ele com sua rola
E ela com o seu priquito." 

Quintino Cunha cousou-se diversas vezes e viveu em constante penúria financeira. Seu livro de versos mais famoso é, Pelo Solimões, publicado em Paris (1907) durante uma viagem do poeta à Europa à convite de amigos. 

Um dos casos mais conhecidos e apreciados pelos frequentadores da Praça do Ferreira nos anos 20 diz respeito a um assassinato perpetrado por um deficiente físico muito pobre, órfão de pai e mãe, que perambulava nas ruas do Centro de Fortaleza à procura de biscates. Tímido e calado, o moço parecia não se importar com as piadas e apelidos que recebia. Todos os dias um sujeito o chamava: "Chico Mei Cu!", "Chico Mei Cu!" e assim foram anos de chacotas. 

Certo dia, num ato de cólera, Francisco armou-se e desferiu umas punhaladas certeiras, ceifando a vida de um de seus mais ferrenhos mangadores. Foi preso no ato e imediatamente trancafiado na cadeia pública, onde permaneceu aguardando o julgamento. 

Atendendo às súplicas dos que queriam a libertação de Francisco, apareceu diante do Júri o consagrado advogado, Quintino Cunha. Após ouvir os argumento vigorosos da promotoria, que pedia a condenação e pena máxima para o réu, o Juiz convocou a defesa. Quintino Cunha levantou-se e entrou em cena: 

- Meritíssimo Juiz, Ilustríssimo Doutor Promotor, Respeitabilíssimos Jurados. Em defesa de Francisco eu tenho a dizer que... (Pausa). Sentou-se começou a escrever. 

Após alguns segundos de pausa, ele repete: 

- Meritíssimo Juiz, Ilustríssimo Doutor Promotor, Respeitabilíssimos Jurados. Em defesa de Francisco eu tenho a declarar que... (Nova pausa). Sentou-se e continuou escrevendo. 

Após os novos segundos de pausa, ele torna: - Meritíssimo Juiz, Ilustríssimo Doutor Promotor, Respeitabilíssimos Jurados. Em defesa de Francisco eu poderia falar que... 

De imediato o Juiz esbraveja: 

- Mas quanta demora! O Senhor irá ou não dar início à defesa do reú? 

Ao que Quintino replicou: 

Repare só, Meritíssimo: Não faz sequer um minuto que eu só me dirijo a vós de forma respeitosa, e já provoquei vossa inquietação. Agora imagine Vossa Excelência, o que deve ter passado pelas idéias do pobre Francisco, após todos esses anos de achincalhamento e mangoça pública. 

Seguindo, Quintino Cunha deu continuidade ao discurso de defesa. E com toda a eloquência e poder de convencimento que lhes eram peculiares, conseguiu a absorvição do réu. Saiu do tribunal carregado nos braços por seus amigos, rumo ao botequim mais próximo.

Germanófilo anti-Hitler; esquerdista anti-Stalin; homem do povo e orador nato, Quintino Cunha era culto, boêmio e frequentador assíduo da Praça do Ferreira nos anos 20 e 30, à época dos cafés Art Nouveau, Riche, Glória e do Comércio. Contemporâneo de Leonardo Mota, Gustavo Barroso e Paula Nei, foi homenageado por Euclides da Cunha, Guerra Junqueiro e Émile Faguet e por outros bastiões da Academia Francesa. 

É dele a singela expressão: "O cearense é como o passarinho: tem que arribar para fazer o ninho.” "No Ceará, o sujeito nasce na Fé, cresce na Esperança e morre na Caridade”.

Há quem diga que momentos antes de morrer Quintino ditou uma frase para seu próprio epitáfio: "O Padre Eterno, segundo conta a Sagrada Escritura, tirou o Mundo do nada... e eu nada tirei do mundo!”.


                                Quintino Cunha
                               Rui Barbosa Morto


                           Cerebração complexa e o primeiro
                           dos grandes homens nacionais em tudo.
                           Continente a viver do conteúdo
                           de si mesmo, na Pátria e no estrangeiro.


                          De virtudes, um másculo pioneiro;
                          da nossa Liberdade, eterno escudo;
                          deram-lhe tudo, menos sobretudo,
                          a direção do povo brasileiro!


                          Vivo, não fora a tanto necessário...
                          Morto, é tão grande, é tão extraordinário,
                          que encontra, em cada Estrela, um cemitério!


                          De onde passo a ilagir, um tanto aflito:
                          ou o Rui foi menos do que se tem dito,
                          ou este nosso Brasil é um caso sério...


Nota: soneto feito de improviso, numa mesa do bar Rotisserie, em Fortaleza, a pedido de Leonardo Mota, quando da morte de Rui Barbosa.
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Fontes:
Livro “Anedotas do Quintino”, de Plautus Cunha, com colaboração de José Rodrigues dos Santos.

PELO SOLIMÕES, Quintino Cunha, 2a. edição revista, Manaus: Editora Valer,1999. ISBN 85-86512-15-X

Comunhão da serra (c/ João Quintino)
Encontro das águas (c/ Mamede Cirino)
Mulher do norte (c/ João Quintino)
Vais? (c/ Manuel Cândido)