sábado, agosto 07, 2010

A MUDEZ DOS INTELECTUAIS



As letras, a cultura, a política... andam em baixa no Ceará há décadas. Há tempos não vejo um intelectual levantar sua voz para atingir um alvo no poder. Andam mudos e acabrunhados, não por falta de conteúdos, mas por descrença na política e nos políticos do Estado. Mas esse pretexto não pode se confundir com submissão ou medo, muito menos com indigência intelectual em decorrência de um drama de Cultura que vivemos.

Ah! Gerardo Mello Mourão, por onde andas, meu irmão? 

Aprendi muito ao longo de 20 anos de irmandade com o bardo das Ipueiras e poeta absoluto, Gerardo Mello Mourão, inspirador de duas gerações de poetas e escritores. 

Lembro-me bem do dia em que Ele, eu, Barros Pinho e Paes de Andrade regressamos de um evento em Crateús e quando chegamos em Fortaleza, nos deparamos com um artigo do Gerardo nas páginas do Jornal O Povo, no qual começa assim: 

NO CEÁRA NÃO HÁ PROPRIAMENTE UM GOVERNO. O QUE HÁ AQUI É UMA QUADRILHA EMPRESARIAL QUE É DONA DE TUDO OU QUASE TUDO NO ESTADO.


A coisa ferveu no Cambeba. Tasso, Sergio Machado e outros ameçaram processar o poeta e o jornal. Indiferente aos acontecimentos, à noite fomos juntos para um evento em sua homenagem na Assembléia Legislativa do Ceará. Na tribuna, após haver falado das misérias que testemunhara durante sua viagem ao sertão do Ceará, Gerardo perguntou aos deputados, olhando nos olhos de cada um, se alguém ali poderia dizer para que serve um poeta num Estado pobre em Cultura e em tudo, inclusive em política honesta?

Após um tempo de silêncio frustrante, eis que Gerardo afia as palavras na sua língua de pedra e disse: "Neste mundo o que dura é o que foi fundado pelos filósofos, escritores e poetas, e não pelos especialistas, que são meros figurantes de uma tarefa ancilar. Os especilistas não são protagonistas do saber nem da história. Nunca um especialista criou algo duradouro nem embasou uma nação."

Ao ouvir isso, suspeitei que Gerardo utilizou o eufemismo “especialista” para não deixar os deputados que o aplaudiam de saia-justa. E prosseguiu: "A Grécia foi fundada pelo poeta, Homero, cego e gênio. O império romano foi inspirado pelo poeta Virgílio e por um escritor que se fez general, Caio Julio César. O mundo judaico foi fundado pelos poetas das profecias, Jeremias, Isaias, Ezequiel, Daniel e pelos Cantos do rei Davi. A civilização mulçumana foi fundada pelo poeta Maomé, seu senhor e soberano. A China e a Ásia Oriental foram fundadas pelo poeta Kung-Fu-Tze, que conhecemos por Confúcio. A Itália foi fundada por Dante, poeta absoluto. Churchill, animava suas tropas contra o fogo de Hitler, enviando aos soldados os versos de Shakespeare. Os soldados germânicos levavam na mochila os Cantos de Rilke e os hinos de Hölderlin. E o que seria de Portugal sem Camões e Pessoa? Da França sem Voltaire, Baudelaire, Lamartine e Hugo? E o Ceará sem seus poetas, renegados e esquecidos?"

E finalizou dizendo: "Foi o Deus poético e dialético que engendrou o pensamento mítico, o tempo divino do homem, mas foi a verdade helênica que deu vigor à noção de liberdade e de democracia, verdade luminosíssima que fundou o homem livre". Os aplausos dos deputados não impediram o nosso poeta de dizer: "Pois bem, senhores, é para preencher o vazio do espírito humano que serve um poeta com sua poesia."

Ruy Câmara